domingo, 1 de agosto de 2010

Paladar

Ele tinha um mar em sua boca. Era um gosto muito salgado de mágoa (o mar tem mágoa de não ser oceano...). Foi o beijo mais triste que já provei, até em momentos felizes.
E a língua morna (nunca de Mar Morto) que se contentava apenas com o meu céu, hoje dançou por outra galáxia. E lá conversou com as estrelas, descobriu seus planetas e lhe prometeu outras luas. Mas não ao meu universo... Um universo todo feito de açúcar e canela. E a sede? Era infinita. Não passava. Era sede de mar... Daquela que resseca por dentro...
Mas água salgada não mata sede de ninguém. Água salgada não é potável. Ele me disse, com ares de poeta bandoleiro (a pior espécie que pode existir entre os poetas fajutos) que eu era doce demais. E doce demais enjoa e dá dor de barriga. Assim, liricamente...
E me perguntam sobre a acidez das palavras, como se não soubessem dos finais de todos os romances da vida. É porque o doce, alguma hora nessa vida, acaba por azedar...

terça-feira, 18 de maio de 2010

Cheio das intimidades

Sempre escuto dizerem que a etiqueta, quando se trata da vida a dois, acaba se tornando impraticável. Bem. Tenho uma teoria. E um culpado também. O banheiro, senhoras e senhores.
Até hoje me pergunto: “Como é possível um casal dividir um banheiro?”. Este ato vai contra a prática do amor. Sério. Não deveria ser permitida esta divisão. Aliás, uma lei se encaixaria muito bem aí, pra proibir este ato. Estaria previsto no código penal, com o caráter hediondo... A pena seria dividir um banheiro pro resto da vida!
Não precisam ficar chocados. Dentro dele existem coisas piores. O banheiro foi feito pra isso. Imaginem só: aquela cebola debaixo do braço, o esgoto da boca e o queijinho do pé... Onde iriam parar? Debaixo da cama? Dentro do fogão? Errado. É lá. Naquele lugar insólito muitos problemas são resolvidos.
Porém, ao resolvê-los, este lugar guarda os nossos mistérios. O segredo do batom e da lingerie “levanta-e-segura-tudo-pelo-amor-de-deus!”, por exemplo. E não se deixe enganar pelo perfume de eucalipto e a suposta assepsia da louça branca: todas as saus fraquezas estão lá... Sim... Na tampa levantada, na calcinha pendurada, naquele barulho típico e na descarga que vai sim te denunciar.
Exemplo maior é o próprio banho. O banho é um ritual muito broxante, quando realizado pra sua verdadeira finalidade, que é a limpeza corporal. Não somos atores pornôs, não é tudo esfregação e sacanagem. É bucha pra tirar excesso de pele, gilete pra tirar excesso de pelo, aquelas duchas constrangedoras, prêmios de xampu, cantorias desafinadas e aquele monte de espuma ridícula no cabelo. E há de se refletir que touca de banho não é nada sexy. Agravante pra homens. Pior se forem carecas.
De certa forma, este lugar da nossa vida acaba sendo a maior passagem pra intimidade. E totalmente necessário. Percebam o esforço absurdo que deve ser achar aquele cara fedido e sujo depois da pelada ainda o homem da sua vida. Ou aquela pobre coitada com as pernas peludas e cinco dedos de raiz a retocar no cabelo ainda a mulher que você quer passar o resto dos seus dias junto... Viva o banheiro, então?
No fim, confesso ter uma admiração tremenda pelos que deixam seus amores invadirem este cômodo tão íntimo e obscuro de suas vidas.
Rachar a conta, meu amigo, é mole.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

"Atenção senhores passageiros... Preparar para a aterrissagem..."

E então ele acorda. Vai chegar a sua cidade natal (para o Natal), engordar com a comida da mãe e da avó, vai rever sua bela família, que dirá que ele está bem, bonito e forte. A família que lhe dizia belas palavras de incentivo das quais ele não lembrava. Apenas sua intuição dizia que daquelas pessoas tão bonitas, só poderiam mesmo vir palavras bonitas.
Ele é um novo homem. De sapatos novos e corte de cabelo novo, inclusive.
Olhando pela janela do táxi, ele vai dizer que o caminho mudou bastante, que tem menos árvores e, olha só!, aquele prédio não estava ali antes, hein...
Na frente da casa dos pais, notará uma cor nova na cerca, com um namorado à espera de sua irmã, que estará um pouco mais alta, mas não menos pentelha.
Perceberá ciúmes naturais de “cunhado” (como o rapaz insiste em chamá-lo sob seu olhar de protesto simpático, mas ainda protesto).
Notará rugas a mais, cabelos a menos e um cansaço que parece não vir de dias fatigantes, mas sim, de uma vida inteira dedicada a ele.
Verá mobília nova. Sentirá cheiro de desinfetante. Entrará no quarto intacto. Ouvirá seu também intacto rock’n roll. Pensará diante de seus discos que Paul sempre fora o seu preferido, no fundo, no fundo...
E entre tantas descobertas, ele se perguntará: “Onde estive durante tanto tempo?”
Em resposta, ouvirá o alarme de emergência de seu eterno piloto automático.

Este conto foi escrito para todos aqueles que não conseguem lembrar pelo menos UM acontecimento importante para si em cada mês deste ano.
Baseado nisso, meus desejos para 2010 são pelo menos 12 emoções memoráveis para todos... Também achei razoável, afinal, de emoções mornas, o ano tá cheio...
Boas festas.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

A curta história de Lynn

Toda vez que eu olhava para ele, me intrigava o fato dele ter cor de chocolate. Durante nossas corridas atrás de bola ou no pega-pega, nossos braços se esbarravam e, por alguns instantes, via-me cheirando ou provando o suor, para ver se ele era todo chocolate mesmo. Ou feijoada. Ou melado. Não pensava nisso à toa: eu era magro, muito branco, olhos fundos, com cabelos que escorriam pela minha cabeça enorme. E cheio de vermes. Chamavam-me Noah Minhoca.

Todos os dias, depois do almoço, Lynn saía batendo em nossas portas avisando: “Vamos vê-lo! O ônibus está vindo!”. Era a única linha que passava por nosso bairro. Grande, vermelho, barulhento e repleto de senhores e senhoras respeitáveis. Sentávamos na calçada, em ordem, eu, Lynn (e seu apetitoso braço de chocolate), Crosby, Dante, Raymond e Alvin. E quando passava por nós, acenávamos freneticamente, chamando a atenção dos passageiros, que sorriam curiosos, e do motorista, que acenava buzinando. Neste momento, Lynn ficava quieto. O ônibus se aproximava, ele levantava, abaixava as mãos e contemplava o veículo, murmurando muito baixo: “Cuidado... Cuidado... Cuidado...”. Depois, juntava-se a nós para contar as tragédias.

Ele falava bastante sobre essas tragédias, parecia com nossas mães, só que marrom e de boné. Na verdade, ele era o porta-voz da turma, andando na frente, sempre falando. Nas tragédias, fazia questão de ser detalhista. Sempre muito alarmado nas brincadeiras, Lynn não subia em árvores (“Minha prima quebrou todos os dentes numa queda”), não entrava em rios (“Conheci um rapaz que morreu afogado”), não brincava na chuva (“e se um raio me pegar?”), mas, sobretudo, Lynn não corria no meio da rua. De jeito nenhum.

Aos 4 anos, viu sua irmã ser atropelada por um ônibus. Quando nos contou, sonhei durante uma semana com a cena que ele não hesitou em detalhar. Sempre nos avisava, com aquela voz de bronca: “Olha o carro... Não vai agora...”. Ou gabava-se mesmo: “Nunca nenhum carro me pega, pois sou menino bom e brinco sempre na calçada”.

Se isto aborrecia? Sem dúvida. Quando Lynn almoçava em casa, mamãe falava: “Que garotinho obediente... Toma sopa e sabe que legume faz bem”. Eu rangia os dentes de ódio, perguntando onde diabos haviam colocado as crianças normais que comem doces e correm no meio da rua.

Estávamos até acostumados, mas a falastrice dele já enchia naquela hora depois do ônibus. E decidimos um dia não dar mais ouvidos a Lynn. Quando o garoto percebeu que não tinha mais em quem dar broncas, calou-se e foi para um canto. Eu, do gol, percebia os olhos muito atentos que ele colocava na bola. Naquele instante, enquanto pensava me divertir com os amigos, vi que criança é cruel sem querer. Mais tarde, algumas crescem, colocam os freios, depois percebem que não precisam de freios e se tornam adultos cruéis por esporte mesmo...

Em alguma hora daquele jogo, tão alegre e sem regras, a bola foi parar na rua. Todos no campo pararam, como que esperando aquela vozinha fina mandar-nos ficar em segurança na calçada. Para a nossa surpresa, nosso guardião foi atrás da bola. Com os olhos incrédulos, acompanhamos os passos seguros e pomposos de Lynn para pegar a bola. Como num filme, ele abaixou, pegou a bola e olhou em nossa direção com um sorriso que na hora me lembrou um filete de marshmallow.

Fomos interrompidos por um barulho de pneus.

O ônibus havia se atrasado naquele dia e Lynn estava com a bola nas mãos. No meio da rua.

Lembro de ter visto de relance o lençol branco manchado de sangue que cobria o corpo do menino de chocolate. Curiosos foram mais perto para ver. Ficamos afastados da rua, sem coragem para ir até lá. E foi assim desde esse dia. Não brincamos mais de bola.

Encontrei pela vida muitos outros amigos que me davam broncas, ou que se pareciam, tinham cheiro ou até gosto de chocolate. Mas, com lágrimas muito salgadas, lamento nunca mais ter encontrado um amigo que não gostava de doces e não corria pelas ruas quando criança.

sábado, 5 de setembro de 2009

da série "detalhes" - a morte da espera

Fonte: Getty Images

- Luzes apagadas
- Trancar uma porta
- Trocar de roupa
- Lavar pratos
- Abrir uma garrafa de vinho sozinho
- Inseto se debatendo no vidro da janela
- Lençóis novos
- Ler de novo seu livro favorito enquanto saem outros mil lançamentos
- Sair de uma fila
- Trocar o playlist do Ipod
- Chegar num lugar completamente ensopado de chuva
- Desistir do relógio de pulso
- O “Abbey road”
- Carreiras-solo
- Macarrão instantâneo.

da série "detalhes" - a espera da morte

Fonte: Getty Images



- Olhar um horizonte e não pensar em nada
- Bodas
- Aniversário sem bolo
- Velas apagadas
- Casa vazia
- Cuidar de uma árvore
- Cheiro de naftalina em uma roupa
- Ter um passado
- Terminar um diário
- “The sound of silence” ou qualquer blues
- Achar sua história de vida chata
- O “Let it be”
- Comer sem fome
- Desejar estar numa lembrança
- Não mais se importar com opiniões alheias
- Corredores vazios.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Coração de prata.

Todos os dias, Joana mirava o gradeado da janela e detestava o sol passando entre ele. Iludida, sonhava com dias menos ensolarados. Pensava que o sol brilhava muito forte em sua cabeça, e que haveria algum lugar no mundo onde ele não brilhasse tanto assim a ponto de queimar seu cabelo...
Gostava de imaginar o lugar nublado, em que choveria todas as horas, aumentando a possibilidade de um possível amor oferecer carona num guarda-chuva. Como naqueles filmes, aquelas comédias cheias de atrizes de pele muito branca e jovem, que nunca se bronzeiam. E se o fazem, no máximo debaixo de um guarda-sol, chapéu e paparazzi. No Caribe. Uma vez ao ano.
A caminho de seus caminhos sem o menor objetivo, lá ia Joana suando debaixo daquele dourado sem fim... E nem de dourado ela gostava. Achava o prata mais chique, mais prático, de brilho elegante e realista. Lembrava dos prédios de uma cidade grande, de janelas espelhadas ao meio do dia e sonhava (no calor dos pensamentos, literalmente, sob o sol) com o prateado da evolução. “Dourado cansa. Prateado dança”, concluía.
Um dia, começou a chover. Sem pensar duas vezes, ao sentir os pingos nos braços através do gradeado, Joana resolveu sair pra finalmente refrescar suas idéias de panela de pressão.
Pingo a pingo, a chuva lambia o rosto moreno da garota de prata no coração. Lavou os cabelos, o corpo que já não era molhado de suor e a alma de sol entre nuvens. Todo aquele indício de dourado cansado ia dando lugar a uma dança de pingos muito prateados.
E foi assim os outros dias. Aquilo que era ouro virou prata. Não que valesse menos, mas, cá entre nós, Joana anda com um olhar tenebroso estes tempos. Vai ver o sol se cansou de ver sua alma sempre nublada.