terça-feira, 29 de julho de 2008

Palavras pra quem vai


Quando a vida chama, é bom atender. Tudo é novo agora, não? Todos te adoram, fazem festa, torcem, cortam bolos, batizam tuas bebidas... Mas acontece só uma coisa: pra mim, nunca haverá uma forma legal de se despedir. A melhor festa de todas nunca suprirá o lugar vazio na mesa jantar. Claro, nada pode ser positivo pra mim, sabes como eu sou! Mas não te preocupes. Não serei egoísta a ponto de te perturbar com saudades de telefones. Nem tu serás agora altruísta para te perturbares com eles. E nem somos dessas coisas, né, fera?
Apenas digo: segue, mano. Provas assim, terás sempre em toda a vida. Mas datas e momentos importantes longe de quem é importante pra ti também podem virar costume. Porém, não te derretas. Mas também, não deixa o coração virar uma rocha.
Conviver com outros mundos é libertador. Desde que se prenda ao objetivo de crescer e ser digno do que conquistou.

Agora, lembra aí:
- Tua saúde é teu tesouro. Só tu agora podes cuidar dela.
- Teu espaço pode ser invadido, sim senhor. Apenas não deixa ele ser violado.
- Lavar a louça não é o fim do mundo.
- Bagunça de fim de semana também não é.
- Gentileza SEMPRE vai gerar gentileza.
- Aceita a condição de que cresceste.
- A saudade vai apertar e sempre pode ficar mais difícil.
- Faz amigos. Mas daqueles de verdade, seu molenga...
- Nunca confunde liberdade com libertinagem. E se quiser praticar, não justifica uma com a outra.
- Ainda podes errar, a idade te permite.
- Perdoa não ter atentado para as despedidas da vida a ponto de não te conhecer o suficiente. Isso dá espaço para mais um item:
-Conhecer as pessoas da maneira mais pura e profunda é a mais incrível das experiências.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Da necessidade da inveja

É muito comum as pessoas reclamarem da inveja alheia. Tudo sempre gira em torno de fazer e sentir inveja. Invejar e ser invejado são condições. Pois bem, já sei em que condição eu me encaixo. Mas primeiro, devo deixar claro que nunca reclamei de inveja de ninguém. Péssimo começo, eu diria. Certa vez, em um grupo de dinâmica, foi perguntado a uma platéia em que eu me encontrava: “Quem aqui já foi vítima da inveja?”. Todos levantaram as mãos sem nem pensar. Repito: todos. Menos eu. Sério. Não lembrava de nenhuma situação em que qualquer pertence ou momento meus fossem objetos de cobiça de alguém (salvo os que eu mesma disponibilizei, diga-se de passagem). “Deve ser a pressão”, pensei. Todos devem passar por uma situação assim: te perguntam alguma coisa e você não sabe ou não lembra da resposta. É o fim quando existe essa pressão de responder logo... Perguntas na frente de platéias, dessas de levantar a mão ou dizer “sim” ou “não” deveriam ser totalmente proibidas. Ainda mais quando a platéia é de um grupo de dinâmica ou terapia! Fazem você se sentir um burro/tapado/lerdo, além de excluído, como me senti em relação à inveja.
Mais tarde me dei conta: ninguém tem inveja de mim. Se tivessem, tentariam me sabotar de alguma forma. Isso eu sei que não acontece, pois eu mesma me saboto. Se me invejassem, me olhariam feio ou torto. Também não ajuda, pois a minha aparência está acostumada a olhares. De pena. Devem estar pensando: “Que sorte a sua!”. Sorte? Gente. Não ser invejado não é bom. É ser tipo uma cor pastel. É passar despercebido ou arrancar comentários como :“Bela parede... que cor é essa, que nem aparece?”. Fato: quando alguém sente inveja de você, é porque algo de melhor você tem. De repente o mundo gira em volta de seu umbigo! Tudo fica mais claro! Aquela área da sua vida que está sofrendo abalos é alvo de inveja, com certeza! E, no auge da prepotência, pode-se esbravejar que “nunca nada dá certo porque tem um fulano que tem inveja de mim e quer ferrar a minha vida!!!!!!!!!”. E tudo isso com o apoio da platéia da dinâmica ou da terapia.
O engraçado foi a minha constatação. Claro, não pensem que eu coloco fé em todos os meus devaneios. Antes de me sentir mal, espero um aviso, uma confirmação concreta. A minha veio através de uma amiga, daí o “concreto”. Estávamos conversando sobre os estilos de vida adotados por nós duas. Para comentar meu comportamento diante de algumas situações, ela soltou: “ É difícil me imaginar no seu lugar. Não invejo sua vida.”
Não lembro bem do gosto que veio na boca naquela hora. Acho que foi de maçaneta. Ou guarda-chuva. Mas foi bem ruim. Humilhante. Como assim? Nem um amigo pra sentir inveja?? Cadê os amigos nessas horas? Ê maravilha...
De qualquer maneira, descobri que a minha condição é de não-invejada para invejosa.
Sinto inveja dos invejados.

domingo, 27 de julho de 2008

da série "detalhes" - MENTIRA DE AMOR


- Não fere.
- Faz bem para a pele.
- Noites incríveis.
- Nunca tem amigos, sai sempre sozinho.
- Ama tudo o que você veste, faz ou diz.
- Te quer feliz, todos os dias.
- “Você tem razão...”
- Adora seu irmão implicante.
- Deixa como herdeiros a raiva, a decepção e uma criança que não é sua.
- Acha você bom de cama.
- Diz que não vive sem você.
- Vive com você.
- Faz você largar os vícios e, quando some, te deixa sem mais nada.
- Lágrimas de crocodilo.
- Motivo pelo qual solitários desistem do amor verdadeiro.
- Aos amores de mentira, prato cheio.
- Os melhores cafés da manhã você toma nessa época.
- Proposta irrecusável para levar um amor adiante.
- Amnésia alcoólica.
- Dor de cabeça conveniente.
- É feia quando vem dos outros.
- É linda quando é pra salvar uma história de amor.
- É trágica quando é descoberta.
- Necessária.
- Dispensável.

Mentira de amor não dói. Mas não sara.

da série "detalhes" - AMOR DE MENTIRA


- Leva dois amores de mentira para passear; um no sábado e outro no domingo.
- Diz que vai sair com “amigos”.
- Dorme com os “amigos” que sai.
- Detesta sua roupa mais bonita.
- No fundo, prefere ser feliz a te fazer se sentir melhor.
- Não gosta da sua família.
- Sua mãe adora e quer que vocês casem.
- Deixa como herdeiros a saudade, os gêmeos ilusão e desilusão e uma criança de pais separados.
- Se perfuma pra sair sem você.
- Diz que não vive sem seu amor.
- Vive sem seu amor (e muito bem).
- Te deixa vícios diversos (inclusive o próprio).
- Lágrimas.
- Um alívio para os solitários.
- Os melhores pijamas do mundo você usa nessa época.
- É beleza que se põe à mesa.
- Promessas de resto da vida.
- Um amigo sempre avisa: “Toma cuidado...”
- Você nunca ama de mentira.
- Você precisa.
- Você viveu ou viverá; foi ou será.

Amor de mentira dói. Mas sara

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Ciclos


Este ano tem tido sabor de descoberta. De ciclos de vida. Não por experiência própria porque a vida alheia é bem mais interessante. Duas pessoas da minha família completam este ano idades significativas: 50 e 90 anos.
Não tenho nenhum dado esotérico preciso (esoterismo é preciso? E nos dois sentidos da pergunta?), mas posso usar por aqui a minha lógica numerologística (?). Bem. Cinqüenta anos é meio século. Muita coisa acontece em um século inteiro. Desde revoluções e guerras (se bem que a 2ª guerra mundial durou menos que uma década) até perspectivas históricas e ideais que mudam. Pois então: meio século é meio caminho andado. Parece que a metade de uma vida (a da Dercy Gonçalves, por exemplo) já foi vivida.
Pode ser “meio” cansativo ter 50 anos. Temos a idéia de que faltam coisas pra fazer. Mesmo quando o já feito já pareça bastante aos olhos dos outros (filhos criados, vida profissional estável, companhia pro resto da vida...). Por outro lado, é cretino pensar que uma vida está vivida aos 50! É preferível esperar por outros 50 anos que, pela estatística de Dercy, nos é de direito!
Então vem a outra idade: os noventa anos. Noventa por cento de um século, hein? Com a saúde envelhecida e os conceitos envelhecidos fica difícil acompanhar tudo e todos. A nossa capacidade de assimilação e absorção do que é novo fica menor. Ficamos lentos. E o mundo não contribui ficando mais rápido.
Imagina chegar aos 90 (anos)! Olhar para trás e ver o quanto foi feito, quantos venceram, morreram, perderam... É um estado um tanto contemplativo e observador. Porém, é uma sala de espera de um encontro fatal. A morte nesse ponto é certa porque se escapou muito dela. É fato: ficamos mais lentos, portanto, menos dispostos a escapar. Mas o mais incrível é o quanto a idade traz a serenidade necessária para aceitar os fatos da vida e da morte.
Percebo isso quando vejo o olhar e a postura de minha avó e meu pai. Meu pai, prestes a completar a 50ª primavera, tem ainda os olhos arregalados para a política e levanta a voz para o que é errado, podre, sujo ou tende para o desastre. Ele ainda possui muito poder de decisão nas vidas de meus irmãos (e minha, por que não?). Ainda arrisca um cigarrinho e uma cerveja aqui e ali. A saúde dá seus trancos, mas pô! Cinqüentinha?! Há muito ainda pra se discutir, tentar consertar... O médico vai ver a cara dele por mais 50 anos ainda... Pode-se terminar o que está incompleto e o corpo vai colaborar, eu sei!
Minha avó já completou 90 anos essa semana e tem os olhos mais cerrados... Apertadinhos, com rugas nos cantos. Não se assusta muito com os erros do mundo, de forma que já os previa, ou algo assim. O que a assusta (e muito!) é a perda gradual de sensibilidade e o desvirtuamento dos valores, onde o erro não é mais um processo de aprendizagem e sim, vício. Mas mesmo assim, mantém a postura calma na cadeira de balanço... Com a sua missão comprida (muitos filhos) e cumprida (todos criados, com poder decisão na vida dos outros...). Não reprova mais levantando a voz. Apenas um balançar delicado da cabeça e os lábios recolhidos para um lado só da boca já revelam a sua reprovação.A saúde é preciosa. O corpo é templo. É esperar. E, segundo ela mesma fala, esperar em Deus.

Dedico este texto à minha avó Lili, ao meu pai de criação e a Dercy Gonçalves. Agradeço a inspiração, o aprendizado e a esperança nas estatísticas.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

da série "detalhes"- O BELO DO RIDÍCULO


- Olhos inchados de manhã.
- Mau-humor três vezes na semana.
- Mudança de cabelereiro.
- Um presente da vó que pode ter ficado meio largo.
- Tropeçar nos pés.
- Item anterior na praça de alimentação de um Shopping sábado á noite.
- Roupas íntimas antigas.
- Nariz vermelho de espirro.
- Gagueira.
- Festa à fantasia (onde o único fantasiado é... adivinha?).
- Air Supply.
- Chaplin.
- Roberto Carlos.
- Cheiro de lavanda.
- Camisola de bolinhas com furo no sovaco.
- Qualquer blusa com furo no sovaco.
- Cofrinho aparecendo.
- Cabelos desgrenhados pelo travesseiro.
- Maquiagem demais, sombrancelhas demais.
- Maquiagem de menos, sombrancelhas de menos.
- Ter duas camisetas favoritas e antigas.
- Ter dois amigos favoritos e antigos.
- Virgindade por exclusão social.
- Promiscuidade por tentativa de inclusão social.
- Solitude de sábado à noite.
- Vazio de domingo.
- Rotina.

Isso é que dá não querer ser RIDÍCULO.

da série "detalhes"- O RIDÍCULO DO BELO

- -Escolher os sapatos de acordo com a cor do botão da camisa, não importando se o pé reclama espremido e implorando sensatez.
- Encolher a barriga todas as vezes que vai sentar achando que ninguém vai perceber.
- Passar três horas em uma cadeira, com alguém que não consegue pentear o próprio cabelo puxando o seu (“ Vai ficar DI-VI-NA”).
- Submeter-se à mesma pessoa para que seu cabelo fique três dias fedendo a amônia de mês em mês.
- Deixar de comer pão pra entrar em uma calça jeans.
- Comprar um vestido dois números menor achando que, deixando de comer pão, entrará nele.
- Abrir o armário e dizer que não tem nenhuma roupa.
- Olhar para o que os outros estão vestindo e achar que dizendo que “os brincos dela não combinam com o cinto” fará com que se sinta menos feio.
- Procurar defeitos.
- Achá-los em si tentando escondê-los.
- Lamentar-se por não se enquadrar nos próprios padrões.
- Não satisfeito, tentar enquadrar os que estão ao seu redor.
- Ser superficial a ponto de não querer saber o que existe por trás do mau-gosto.
- Definir “mau-gosto” como “não sabe se vestir”.
- Achar que Viviane Araújo se apaixonou por seus belos olhos.
- Acreditar que depois da prisão ainda haveria espaço na mídia.
- Não saber que o status de “cantor romântico” é tão ou mais terrível que “pagodeiro”.
- Por fim: não ter nenhum amigo verdadeiro pra avisar que tintura amarelo-miojo no cabelo é o fim.

Isso é que dá querer ser BELO.