-Matar a sede de água. - Dormir em cima de livros ou escritos. - Barulho de chuveiro. - Lágrimas de crise de espirro. - Lágrimas de crise de riso. - Lágrimas, enfim. - O olhar inchado do choro. - Beijo seguido de suspiro. - Desfalecimento em abraço. - O sofá e as boas-vindas do cachorro. - Programa de vendas na madrugada. - Fim de segunda. - Começo de sexta. - Briga de sábado. - Ressaca de domingo.
Estavam tomando vinho há muito tempo. - Hum... Acho que nunca disse o quanto gosto das tuas sombrancelhas... Parecem desenhadas no teu rosto... - Talvez porque as sombrancelhas sejam o desenho do rosto. Jaime era lento com elogios. E metáforas e comparações. Já Sofia era péssima em fazê-los. - Teus olhos são esverdeados, não é? - Eles tem cor de avelã. - Que cor tem a avelã? - A cor dos meus olhos. A noite ia adentro também questionando aquele encontro tão improvável. Ele tinha um berimbau na sala, almofadas indianas e uma quedinha por ela. Ela vestia preto, estava de colar e apaixonada por ele. Jaime despistara a namorada naquela noite. E Sofia topara ir até o apartamento. Àquela hora, a conversa não havia saído. Nem com as duas garrafas de vinho. A verdade era que os dois eram muito difíceis. - Gostas de poesia? - Prefiro histórias. Curtes Raul? - Prefiro Renato Russo. Bob Dylan? - Bob Marley. Godzila? - Jurassic Park. Alegria? - Quando chove. Agonia? - Em dias quentes. Fantasia? - De pirata. Tara? - De espanhola. Cantar? - Dançar. Cultura pop? - Anos 80. Herchcovitch? - Cavallera. McCartney? - Em Helter Skelter. Pausa longa. Neste momento a sala acabou por iluminar-se. Era o clima perfeito. - Cama ou sofá? - Sofá. Agora. E assim eles se entenderam.
Para terem coragem. Honrarem sua palavra. Assumirem o compromisso de serem o que são. Defender. Criam-se homens por um motivo maior. Nós. Criam-se homens para abrir a porta do carro. Para saber se estamos famintas. Para nos dar de comer, por mais que os olhos gulosos sejam os deles. Criam-se homens para construir nossas casas. Elogiarem nossa comida. Para dizer que o vestido é que está curto, nunca o cabelo. Ou para dizer que não precisamos de maquiagem. Admirarem nosso formato. Gostarem da doçura de nossos perfumes. Criam-se homens para cuidar do mundo. Do nosso mundo. Acima de tudo, para serem dignos do amor. Do nosso amor, pois é o maior desafio dentre tantas missões destinadas a eles. O mundo deles é cão. O nosso é caos. Criam-se homens para serem não nossos príncipes, mas nossos cavaleiros. Homens são criados no formato ideal para as mulheres. Aqui eles são necessários. O mundo criado por eles é inadequado para nós. Mulheres precisam de homens. Porque o chuveiro, a porta e a lâmpada não se consertam sós quando quebram. Nós também. Por mais que tenham sido por suas mãos brutas.
Nota: Este texto é um presente de aniversário. Ele vale por toda a admiração e carinho que tenho por ti. Obrigada por existir!
Ele tinha um mar em sua boca. Era um gosto muito salgado de mágoa (o mar tem mágoa de não ser oceano...). Foi o beijo mais triste que já provei, até em momentos felizes. E a língua morna (nunca de Mar Morto) que se contentava apenas com o meu céu, hoje dançou por outra galáxia. E lá conversou com as estrelas, descobriu seus planetas e lhe prometeu outras luas. Mas não ao meu universo... Um universo todo feito de açúcar e canela. E a sede? Era infinita. Não passava. Era sede de mar... Daquela que resseca por dentro... Mas água salgada não mata sede de ninguém. Água salgada não é potável. Ele me disse, com ares de poeta bandoleiro (a pior espécie que pode existir entre os poetas fajutos) que eu era doce demais. E doce demais enjoa e dá dor de barriga. Assim, liricamente... E me perguntam sobre a acidez das palavras, como se não soubessem dos finais de todos os romances da vida. É porque o doce, alguma hora nessa vida, acaba por azedar...
Sempre escuto dizerem que a etiqueta, quando se trata da vida a dois, acaba se tornando impraticável. Bem. Tenho uma teoria. E um culpado também. O banheiro, senhoras e senhores. Até hoje me pergunto: “Como é possível um casal dividir um banheiro?”. Este ato vai contra a prática do amor. Sério. Não deveria ser permitida esta divisão. Aliás, uma lei se encaixaria muito bem aí, pra proibir este ato. Estaria previsto no código penal, com o caráter hediondo... A pena seria dividir um banheiro pro resto da vida! Não precisam ficar chocados. Dentro dele existem coisas piores. O banheiro foi feito pra isso. Imaginem só: aquela cebola debaixo do braço, o esgoto da boca e o queijinho do pé... Onde iriam parar? Debaixo da cama? Dentro do fogão? Errado. É lá. Naquele lugar insólito muitos problemas são resolvidos. Porém, ao resolvê-los, este lugar guarda os nossos mistérios. O segredo do batom e da lingerie “levanta-e-segura-tudo-pelo-amor-de-deus!”, por exemplo. E não se deixe enganar pelo perfume de eucalipto e a suposta assepsia da louça branca: todas as saus fraquezas estão lá... Sim... Na tampa levantada, na calcinha pendurada, naquele barulho típico e na descarga que vai sim te denunciar. Exemplo maior é o próprio banho. O banho é um ritual muito broxante, quando realizado pra sua verdadeira finalidade, que é a limpeza corporal. Não somos atores pornôs, não é tudo esfregação e sacanagem. É bucha pra tirar excesso de pele, gilete pra tirar excesso de pelo, aquelas duchas constrangedoras, prêmios de xampu, cantorias desafinadas e aquele monte de espuma ridícula no cabelo. E há de se refletir que touca de banho não é nada sexy. Agravante pra homens. Pior se forem carecas. De certa forma, este lugar da nossa vida acaba sendo a maior passagem pra intimidade. E totalmente necessário. Percebam o esforço absurdo que deve ser achar aquele cara fedido e sujo depois da pelada ainda o homem da sua vida. Ou aquela pobre coitada com as pernas peludas e cinco dedos de raiz a retocar no cabelo ainda a mulher que você quer passar o resto dos seus dias junto... Viva o banheiro, então? No fim, confesso ter uma admiração tremenda pelos que deixam seus amores invadirem este cômodo tão íntimo e obscuro de suas vidas. Rachar a conta, meu amigo, é mole.
E então ele acorda. Vai chegar a sua cidade natal (para o Natal), engordar com a comida da mãe e da avó, vai rever sua bela família, que dirá que ele está bem, bonito e forte. A família que lhe dizia belas palavras de incentivo das quais ele não lembrava. Apenas sua intuição dizia que daquelas pessoas tão bonitas, só poderiam mesmo vir palavras bonitas. Ele é um novo homem. De sapatos novos e corte de cabelo novo, inclusive. Olhando pela janela do táxi, ele vai dizer que o caminho mudou bastante, que tem menos árvores e, olha só!, aquele prédio não estava ali antes, hein... Na frente da casa dos pais, notará uma cor nova na cerca, com um namorado à espera de sua irmã, que estará um pouco mais alta, mas não menos pentelha. Perceberá ciúmes naturais de “cunhado” (como o rapaz insiste em chamá-lo sob seu olhar de protesto simpático, mas ainda protesto). Notará rugas a mais, cabelos a menos e um cansaço que parece não vir de dias fatigantes, mas sim, de uma vida inteira dedicada a ele. Verá mobília nova. Sentirá cheiro de desinfetante. Entrará no quarto intacto. Ouvirá seu também intacto rock’n roll. Pensará diante de seus discos que Paul sempre fora o seu preferido, no fundo, no fundo... E entre tantas descobertas, ele se perguntará: “Onde estive durante tanto tempo?” Em resposta, ouvirá o alarme de emergência de seu eterno piloto automático.
Este conto foi escrito para todos aqueles que não conseguem lembrar pelo menos UM acontecimento importante para si em cada mês deste ano. Baseado nisso, meus desejos para 2010 são pelo menos 12 emoções memoráveis para todos... Também achei razoável, afinal, de emoções mornas, o ano tá cheio... Boas festas.
Toda vez que eu olhava para ele, me intrigava o fato dele ter cor de chocolate. Durante nossas corridas atrás de bola ou no pega-pega, nossos braços se esbarravam e, por alguns instantes, via-me cheirando ou provando o suor, para ver se ele era todo chocolate mesmo. Ou feijoada. Ou melado. Não pensava nisso à toa: eu era magro, muito branco, olhos fundos, com cabelos que escorriam pela minha cabeça enorme. E cheio de vermes. Chamavam-me Noah Minhoca.
Todos os dias, depois do almoço, Lynn saía batendo em nossas portas avisando: “Vamos vê-lo! O ônibus está vindo!”. Era a única linha que passava por nosso bairro. Grande, vermelho, barulhento e repleto de senhores e senhoras respeitáveis. Sentávamos na calçada, em ordem, eu, Lynn (e seu apetitoso braço de chocolate), Crosby, Dante, Raymond e Alvin. E quando passava por nós, acenávamos freneticamente, chamando a atenção dos passageiros, que sorriam curiosos, e do motorista, que acenava buzinando. Neste momento, Lynn ficava quieto. O ônibus se aproximava, ele levantava, abaixava as mãos e contemplava o veículo, murmurando muito baixo: “Cuidado... Cuidado... Cuidado...”. Depois, juntava-se a nós para contar as tragédias.
Ele falava bastante sobre essas tragédias, parecia com nossas mães, só que marrom e de boné. Na verdade, ele era o porta-voz da turma, andando na frente, sempre falando. Nas tragédias, fazia questão de ser detalhista. Sempre muito alarmado nas brincadeiras, Lynn não subia em árvores (“Minha prima quebrou todos os dentes numa queda”), não entrava em rios (“Conheci um rapaz que morreu afogado”), não brincava na chuva (“e se um raio me pegar?”), mas, sobretudo, Lynn não corria no meio da rua. De jeito nenhum.
Aos 4 anos, viu sua irmã ser atropelada por um ônibus. Quando nos contou, sonhei durante uma semana com a cena que ele não hesitou em detalhar. Sempre nos avisava, com aquela voz de bronca: “Olha o carro... Não vai agora...”. Ou gabava-se mesmo: “Nunca nenhum carro me pega, pois sou menino bom e brinco sempre na calçada”.
Se isto aborrecia? Sem dúvida. Quando Lynn almoçava em casa, mamãe falava: “Que garotinho obediente... Toma sopa e sabe que legume faz bem”. Eu rangia os dentes de ódio, perguntando onde diabos haviam colocado as crianças normais que comem doces e correm no meio da rua.
Estávamos até acostumados, mas a falastrice dele já enchia naquela hora depois do ônibus. E decidimos um dia não dar mais ouvidos a Lynn. Quando o garoto percebeu que não tinha mais em quem dar broncas, calou-se e foi para um canto. Eu, do gol, percebia os olhos muito atentos que ele colocava na bola. Naquele instante, enquanto pensava me divertir com os amigos, vi que criança é cruel sem querer. Mais tarde, algumas crescem, colocam os freios, depois percebem que não precisam de freios e se tornam adultos cruéis por esporte mesmo...
Em alguma hora daquele jogo, tão alegre e sem regras, a bola foi parar na rua. Todos no campo pararam, como que esperando aquela vozinha fina mandar-nos ficar em segurança na calçada. Para a nossa surpresa, nosso guardião foi atrás da bola. Com os olhos incrédulos, acompanhamos os passos seguros e pomposos de Lynn para pegar a bola. Como num filme, ele abaixou, pegou a bola e olhou em nossa direção com um sorriso que na hora me lembrou um filete de marshmallow.
Fomos interrompidos por um barulho de pneus.
O ônibus havia se atrasado naquele dia e Lynn estava com a bola nas mãos. No meio da rua.
Lembro de ter visto de relance o lençol branco manchado de sangue que cobria o corpo do menino de chocolate. Curiosos foram mais perto para ver. Ficamos afastados da rua, sem coragem para ir até lá. E foi assim desde esse dia. Não brincamos mais de bola.
Encontrei pela vida muitos outros amigos que me davam broncas, ou que se pareciam, tinham cheiro ou até gosto de chocolate. Mas, com lágrimas muito salgadas, lamento nunca mais ter encontrado um amigo que não gostava de doces e não corria pelas ruas quando criança.