Um dos maiores motivos que me fazem preferir o dia à noite são as cores. A noite é de uma cor só. O dia é colorido, e eu gosto de perceber tudo às claras, sem máscaras.
Acho demais o dia amanhecer cinzento. Sei bem que é quase unânime a preferência pela chuva na janela em dia de domingo, mas o cinza vai mais além. Muitos podem pensar que um dia cinza é sem vida. Imagina! O cinza é a cor da sobriedade. Não é à toa que precisamos de mais atenção ao dirigir na chuva, já que, de dia, não temos o luxo da luz artificial que tem a noite.
Vejo sofisticação e seriedade na fumaça que sai dos cigarros dos fumantes. Pouca saúde também. Mas não tão triste quanto a apatia dos jalecos dos enfermeiros, que é diferente do branco limpo e salgado dos aventais dos chefs de cozinha. E da higiene quase séria das camisas dos barbeiros.
Amarelo é a cor do dia; e apesar de eu achar uma cor horrenda em roupas, ele me pega pela poesia que tem. A cor da alegria, do entusiasmo, da frente da casa da minha mãe, das coisas valiosas, do meu enxoval quando neném, do sinal ignorado, da bundinha da abelha... E é a cor do sol, a razão do dia. Mas vocês nunca me verão usando uma calça amarela por livre e espontânea vontade...
Laranja, assim como aqueles cones de sinalização, é irritante. Ácido que chama atenção. Era a cor do uniforme da minha antiga escola. E da criatividade, da vitamina que eu tomo de manhã e do local onde trabalho. Desperta assim como o vermelho. Aliás, o vermelho é forte. Alarma como nos sinais de trânsito, os luminosos que indicam perigo ou saídas de emergência. Revela a masculinidade na fachada do Corpo de Bombeiros daqui da minha cidade. É revolucionário nas camisas dos esquerdistas e apaixonado na minha camiseta dos Beatles; convidativo em lábios e unhas; majestoso no tapete de entrada do cinema; corajoso nos joelhos ralados dos moleques danados.
O azul é para onde se olha para acalmar o passo. Depois de tantas cores, olho para cima e fica tudo bem. Ele refresca e faz pensar. É água. É renovação. A cor das caixas d’aguas, dos fundos de piscinas, daquilo que evapora e limpa e das comidas que não existem (ou não são apetitosas!). Cor do meu banheiro; das canetas BIC, tão companheiras; dos lençóis mais macios; das logomarcas empresariais. Azul também é profundo. É fechado em si; pois, assim como no azul das veias, pouco revela o que guarda.
Passeando pelos cantos, vejo todas essas cores em varais de roupas, vitrines, bandeiras, pipas e a cidade...
E chego em casa. Entro no lugar onde escrevo; tem cor de esperança; é onde me curo de todas as mazelas (físicas ou não); onde olho para a janela e vejo mais dessa tonalidade... É a cor que me inspira, que guarda o cheiro das árvores, o ativismo, o altruísmo e, paradoxalmente, o individual. O meu quarto tem a minha cor. O quarto verde.
Meus dias são coloridos. Por isso vivo de dia e finjo à noite...
domingo, 17 de maio de 2009
sexta-feira, 24 de abril de 2009
O sentido do que é sentido
Chorar é ruim? Há quem responda que depende do motivo.
Eu respondo que ruim é segurar o choro.
E dar gargalhadas? Maravilhoso.
Num velório? Não muito.
Sentir raiva, pena, preguiça, alegria, tristeza ou saudade é normal.
Mas devíamos nos perguntar: os sentimentos bons são tão superiores a ponto de reprimirmos os que são “maus”?
Já passei três dias chorando. E três horas rindo. Ambos me deixaram com os músculos abdominais cansados e doloridos. Qual foi o melhor? Nem sei. E o pior? Menos ainda.
São sentimentos. Quando chorei, pensei que morreria de tristeza. Quando ri, pensei que era o momento mais feliz da minha vida. E estava errada em todos, pois cada um deles me serviu em uma ocasião. Mal eu sabia que viriam outras pela frente (bonitas e feias, inclusive)
E a preguiça? Fazer coisas com preguiça, segundo a minha avó, é fazer duas vezes. Preguiça é pra ser curtida.
Pena se tem até achar outro sentimento substituto.
Alegria dura pouco, mas é intensa. Tristeza dura muito porque é imensa.
Enxergo os sentimentos com cores e tamanhos. E a gente tem que experimentar pra ver qual é que serve... Percebam: um alguém sempre é ou mais triste, ou mais feliz, mais ansioso, mais sereno...
Devemos sentir todos no ápice de nossos sentidos.
O único mesmo que a gente tem que matar é a saudade...
Bom ver vocês!
Eu respondo que ruim é segurar o choro.
E dar gargalhadas? Maravilhoso.
Num velório? Não muito.
Sentir raiva, pena, preguiça, alegria, tristeza ou saudade é normal.
Mas devíamos nos perguntar: os sentimentos bons são tão superiores a ponto de reprimirmos os que são “maus”?
Já passei três dias chorando. E três horas rindo. Ambos me deixaram com os músculos abdominais cansados e doloridos. Qual foi o melhor? Nem sei. E o pior? Menos ainda.
São sentimentos. Quando chorei, pensei que morreria de tristeza. Quando ri, pensei que era o momento mais feliz da minha vida. E estava errada em todos, pois cada um deles me serviu em uma ocasião. Mal eu sabia que viriam outras pela frente (bonitas e feias, inclusive)
E a preguiça? Fazer coisas com preguiça, segundo a minha avó, é fazer duas vezes. Preguiça é pra ser curtida.
Pena se tem até achar outro sentimento substituto.
Alegria dura pouco, mas é intensa. Tristeza dura muito porque é imensa.
Enxergo os sentimentos com cores e tamanhos. E a gente tem que experimentar pra ver qual é que serve... Percebam: um alguém sempre é ou mais triste, ou mais feliz, mais ansioso, mais sereno...
Devemos sentir todos no ápice de nossos sentidos.
O único mesmo que a gente tem que matar é a saudade...
Bom ver vocês!
tipo de bagunça:
caixa de segredos,
saindo do quarto
Lista?
Não esqueci da carmim:
Seguem as regras
. escrever uma lista com 8 coisas que sonhamos fazer antes de ir embora daqui (?)
. convidar 8 amigos de blogs para responder também;
. comentar no blog de quem nos convidou;
. comentar no blog dos convidados, para que saibam do meme;
. mencionar as regras
Adoro listas, benhê, mas esta foi terrível de fazer. È muito pra fazer em tão pouco tempo. Ir embora pode ser uma viagem... Planeje fazer uma viagem: você sempre esquece alguma coisa na ida ou na volta...
1- Aprender mais sobre Yoga. Foi um tipo de filosofia que fez muito bem pra mim em uma época difícil, mas parei por falta de tempo (ou de outra desculpa pra parar de estudar a respeito). Quero um dia ficar velhinah e dar aulas sobre isso. Já reúno pessoas e fazemos prática. Mas ainda é bem comecinho e bem básico.
2- Atravessar a Abbey Road. Quem não souber o motivo, não me conhece MESMO.
3- Assistir uma saga completa. Sempre assisto sagas incompletas, ou paro no primeiro filme. Mas“Star wars”, por exemplo, nunca será assistindo completamente por mim...
4- Acreditar mais nas pessoas. Vai ser um processo lento e doloroso. Mas tenho esperança em conseguir, o que é um bom começo.
5- Fazer uma tatuagem bem grande em homenagem à minha mãe. Preciso dizer o motivo? Ok. Só mãe pode deixar de usar todas as roupas que gosta, ficar gordinha, cheia de água, hemorróidas e estrias durante nove longos e tenebrosos meses e ainda ficar feliz por causa disso.
6- Acertar a primeira fornada de cookie.
7- Manter uma caixa de grampos por um mês, sem perder nenhum.
8- Não deixar meus objetivos de vida se reduzirem a 8 tópicos...
Desafio (de verdade, porque é mesmo um desafio) as seguintes pessoas a fazerem um meme:
Parcimônia, eu tento!
Filia por Sofia
Ave, Palavra!
Do caderno de sonhos
Imaginarius Concrético
Fez-se
Crazy Feelings
Mulher Pequena
Seguem as regras
. escrever uma lista com 8 coisas que sonhamos fazer antes de ir embora daqui (?)
. convidar 8 amigos de blogs para responder também;
. comentar no blog de quem nos convidou;
. comentar no blog dos convidados, para que saibam do meme;
. mencionar as regras
Adoro listas, benhê, mas esta foi terrível de fazer. È muito pra fazer em tão pouco tempo. Ir embora pode ser uma viagem... Planeje fazer uma viagem: você sempre esquece alguma coisa na ida ou na volta...
1- Aprender mais sobre Yoga. Foi um tipo de filosofia que fez muito bem pra mim em uma época difícil, mas parei por falta de tempo (ou de outra desculpa pra parar de estudar a respeito). Quero um dia ficar velhinah e dar aulas sobre isso. Já reúno pessoas e fazemos prática. Mas ainda é bem comecinho e bem básico.
2- Atravessar a Abbey Road. Quem não souber o motivo, não me conhece MESMO.
3- Assistir uma saga completa. Sempre assisto sagas incompletas, ou paro no primeiro filme. Mas“Star wars”, por exemplo, nunca será assistindo completamente por mim...
4- Acreditar mais nas pessoas. Vai ser um processo lento e doloroso. Mas tenho esperança em conseguir, o que é um bom começo.
5- Fazer uma tatuagem bem grande em homenagem à minha mãe. Preciso dizer o motivo? Ok. Só mãe pode deixar de usar todas as roupas que gosta, ficar gordinha, cheia de água, hemorróidas e estrias durante nove longos e tenebrosos meses e ainda ficar feliz por causa disso.
6- Acertar a primeira fornada de cookie.
7- Manter uma caixa de grampos por um mês, sem perder nenhum.
8- Não deixar meus objetivos de vida se reduzirem a 8 tópicos...
Desafio (de verdade, porque é mesmo um desafio) as seguintes pessoas a fazerem um meme:
Parcimônia, eu tento!
Filia por Sofia
Ave, Palavra!
Do caderno de sonhos
Imaginarius Concrético
Fez-se
Crazy Feelings
Mulher Pequena
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
Nora e Samuel (ou “Everylasting Love”)
“Open up your eyes, then you'll realize.
Here i stand with my everlasting love
Need you by my side.
Girl to be my pride.
Never be denied everlasting love.”
NOTA DE ESCLARECIMENTO: Tenho o péssimo hábito de não olhar o que o blogger fez nos textos depois de postá-los aqui. Uma espécie de negligência que antes até achava charmosa, mas agora comprometeu um dos textos. Este, que é tão importante, acabou sendo vítima da minha distração e da minha total inabilidade com atalhos do Office. Postei apenas o final do texto... Mil perdões, pessoal. Segue o texto na íntegra.
NOTA DE ESCLARECIMENTO: Tenho o péssimo hábito de não olhar o que o blogger fez nos textos depois de postá-los aqui. Uma espécie de negligência que antes até achava charmosa, mas agora comprometeu um dos textos. Este, que é tão importante, acabou sendo vítima da minha distração e da minha total inabilidade com atalhos do Office. Postei apenas o final do texto... Mil perdões, pessoal. Segue o texto na íntegra.
Antes do vinho barato ou da ceveja quente. Antes das malas arrumadas. Antes de ver o pôr-do-sol. Antes de criar um gato. Antes do buraco na alma.
Antes que a floricultura feche, da última sessão do cinema, que a bateria acabe.
Antes que seja tarde, que todos os que existem por aí no mundo se deem conta de seus amores perpétuos.
Abram seus olhos...
E poupem os ouvidos de seus amigos...
Abram seus olhos...
E poupem os ouvidos de seus amigos...
Samuel (ou “Everybreath you take”)
“Every move you make
Every vow you break
Every smile you fake
Every claim you stake
I'll be watching you”
Eu o achava um otário. Ligava demais, era grudento, queria sempre dormir na minha casa. No início, fiquei maluca com aquela invasão nos meus guardados. A cerveja na cama. A cueca na pia. Depois, ele se tornou meu próprio ar.
Era muito ingênuo. Era dócil. As covinhas que se abriam nas bochechas quando sorria, apesar de fundas, eram suaves. Na verdade, Samuel era um amor. Aqueles amigos babacas... Vocês me desculpem, mas os verbos “chupar” e “arrombar” não tornam uma piada engraçada. Tornam-na obscena e vulgar. Não achava a menor graça naquela turminha. E ele conseguia ser irritantemente adorável. Me apresentava às amigas e não dizia um “ai” pela cara fechada que eu fazia para todas.Todos eram bonzinhos naquele mundo mágico, todos eram de bem, bacanas e alto-astrais. Um bando de “Ternurinha”. Uns bajuladores. Nunca o magoaria falando tanta verdade inconveniente. Detestava ver ele procurando pureza nos meus olhos. Constrangia. Quando perguntei por que tanta amabilidade, ele me respondeu que gostava de pensar que a amargura vinha em forma de potinhos de exames. São simpáticos vazios. Mas quando contém “a causa da sua doença”, você quer mais é se livrar daquela porcaria. Mas que são até colecionáveis, são. Assim ele queria a amargura. Longe dele depois de curado. Que tédio.
Ah... Mas ele não sabe o quanto eu quis passar o resto da vida ao lado dele. Por exemplo, naquele dia, na casa da Larissa. Depois dela falar aquele monte sobre o canalha do João (traidor, mentiroso, safado e sonso). Samuel não entendeu muito bem quando eu disse que ela estava carente e se entregou demais. E ficou mais puto ainda quando eu pedi pra ele se tocar. Devia ter esclarecido que era pra ele se tocar sobre o João...
E depois que ela falou tanto, eu fiquei comovida. Tem gente que não guarda mágoa... Tem gente que ama. Ainda bem, porque eu já estava quase disposta a mudar pelo mundo. Isso tudo eu disse depois de assistir “A liberdade é azul”... Cheguei a enxergar um esboço de sorriso nele. Mas depois ele disse que eu era impossível de entender e foi embora.
Mal ele sabe, mas depois que a gente terminou, não paro de escutar “Close to you”. Milhares de vezes ao dia. Às vezes ligo de outro número só pra ouvir o “Alô?!” alegre dele. Também mudei o caminho só pra vê-lo saindo do trabalho (e Deus inventou o terno...). Só ver. Observar aquele gesticular tão vivo... Aposto que vai ver outra pessoa. E não me importaria quem fosse, desde que ele voltasse para os meus braços mais tarde. Ensaiei uns choros ontem à noite.
E toda vez que ele caminha pro lado contrário em que estou, eu morro aos poucos.
Mas a cada passo que ele der.
A cada suspiro dele.
Eu estarei observando.
Eu o achava um otário. Ligava demais, era grudento, queria sempre dormir na minha casa. No início, fiquei maluca com aquela invasão nos meus guardados. A cerveja na cama. A cueca na pia. Depois, ele se tornou meu próprio ar.
Era muito ingênuo. Era dócil. As covinhas que se abriam nas bochechas quando sorria, apesar de fundas, eram suaves. Na verdade, Samuel era um amor. Aqueles amigos babacas... Vocês me desculpem, mas os verbos “chupar” e “arrombar” não tornam uma piada engraçada. Tornam-na obscena e vulgar. Não achava a menor graça naquela turminha. E ele conseguia ser irritantemente adorável. Me apresentava às amigas e não dizia um “ai” pela cara fechada que eu fazia para todas.Todos eram bonzinhos naquele mundo mágico, todos eram de bem, bacanas e alto-astrais. Um bando de “Ternurinha”. Uns bajuladores. Nunca o magoaria falando tanta verdade inconveniente. Detestava ver ele procurando pureza nos meus olhos. Constrangia. Quando perguntei por que tanta amabilidade, ele me respondeu que gostava de pensar que a amargura vinha em forma de potinhos de exames. São simpáticos vazios. Mas quando contém “a causa da sua doença”, você quer mais é se livrar daquela porcaria. Mas que são até colecionáveis, são. Assim ele queria a amargura. Longe dele depois de curado. Que tédio.
Ah... Mas ele não sabe o quanto eu quis passar o resto da vida ao lado dele. Por exemplo, naquele dia, na casa da Larissa. Depois dela falar aquele monte sobre o canalha do João (traidor, mentiroso, safado e sonso). Samuel não entendeu muito bem quando eu disse que ela estava carente e se entregou demais. E ficou mais puto ainda quando eu pedi pra ele se tocar. Devia ter esclarecido que era pra ele se tocar sobre o João...
E depois que ela falou tanto, eu fiquei comovida. Tem gente que não guarda mágoa... Tem gente que ama. Ainda bem, porque eu já estava quase disposta a mudar pelo mundo. Isso tudo eu disse depois de assistir “A liberdade é azul”... Cheguei a enxergar um esboço de sorriso nele. Mas depois ele disse que eu era impossível de entender e foi embora.
Mal ele sabe, mas depois que a gente terminou, não paro de escutar “Close to you”. Milhares de vezes ao dia. Às vezes ligo de outro número só pra ouvir o “Alô?!” alegre dele. Também mudei o caminho só pra vê-lo saindo do trabalho (e Deus inventou o terno...). Só ver. Observar aquele gesticular tão vivo... Aposto que vai ver outra pessoa. E não me importaria quem fosse, desde que ele voltasse para os meus braços mais tarde. Ensaiei uns choros ontem à noite.
E toda vez que ele caminha pro lado contrário em que estou, eu morro aos poucos.
Mas a cada passo que ele der.
A cada suspiro dele.
Eu estarei observando.
Nora (ou “Try a little tenderness”)
“Oh she may be weary
Those young girls they do get weary
Wearing that same old shaggy dress
But when she gets weary
You try a little tenderness”
Eu a achava muito sexy. Aquele sarcasmo, aquele olhar irônico. Aquela maldade. No início, fiquei maluco. Corria atrás, telefonava, queria passar a noite inteira com ela (a chave de pernas...). Depois, ela se tornou a indisposição em pessoa.
Era muito inflexível. Era radical. A flor de lótus tatuada no ombro esquerdo (linda!), apesar de flor, era agressiva. Na verdade, Nora era um ultraje. Desprezar quem não lhe agradava à primeira vista era uma de suas marcas. Me fazia cada vergonha... Adorava ficar séria diante dos meus amigos piadistas. O pessoal rindo das piadas e ela lá... Impávida. Achava prazeroso analisar e não ver nada de especial em “Ternurinhas” (assim chamava as pessoas de bem, bacanas e alto-astrais). Mentia. Omitia. Mas, no fundo, eu sei que não se orgulhava. Uma vez, quando eu perguntei por que tanta amargura, disse pra mim que gostava de pensar que a ternura poderia um dia vir em latas decoradas, que nem pannetone, que você compra, se delicia e depois guarda outra coisa na lata. Ou só guarda mesmo pra lembrar-se do sabor e do cheiro. “Falta ternura no mercado”. E ela achava que um dia ia chegar. Assim. Que nem magia.
Por exemplo, quando ouviu Larissa dizer que amava o ex, seu estômago revirou. Achou nojento. “Coitada. O que é a paixão... O que é a carência...É o que dá se envolver.” Na minha frente. Eu apaixonado. Era o que ela realmente gostaria de falar pra Larissa, mas não podia. “Claro que não. Com amigos a gente mede palavra. Não é assim, na bucha: ‘Se toca’”. Acreditem: ela era muito capaz de dizer isso... Já disse pra mim.
E enquanto Larissa contava sua dor de amar, Nora ouvia com cara de asco. E depois de ouvir tanta benevolência, tanta falta de mágoa, tanta amabilidade, a repulsa se transformou (susto!) em empatia, mais tarde, depois que a gente viu aquele filme cabeça. “ Como é bonito ver um alguém que não consegue odiar...O mundo tem jeito. E, graças a Deus, não sou eu quem vai promover essa mudança. Tem gente melhor pra isso”. Ah, vou confessar, achei bonitinho quando ela falou assim. Ela tentou... Mas ficou esquisito: o ar de arrogância junto com o comportamento autodestrutivo. Era demais pra mim. Desisti de entender.
Talvez Nora tenha esperanças de ser amada um dia. De dizer pieguices, ouvir Carpenters, ficar horas pendurada no telefone com voz de criança, ser traída, correr atrás do amor perdido e chorar de verdade. Por amor. Sem pensar. Quem sabe ser uma Ternurinha. Eu não consegui.
Talvez ela esteja um pouco entediada.
Nora merece tão mais...
Um pouco de delicadeza, quem sabe..
Eu a achava muito sexy. Aquele sarcasmo, aquele olhar irônico. Aquela maldade. No início, fiquei maluco. Corria atrás, telefonava, queria passar a noite inteira com ela (a chave de pernas...). Depois, ela se tornou a indisposição em pessoa.
Era muito inflexível. Era radical. A flor de lótus tatuada no ombro esquerdo (linda!), apesar de flor, era agressiva. Na verdade, Nora era um ultraje. Desprezar quem não lhe agradava à primeira vista era uma de suas marcas. Me fazia cada vergonha... Adorava ficar séria diante dos meus amigos piadistas. O pessoal rindo das piadas e ela lá... Impávida. Achava prazeroso analisar e não ver nada de especial em “Ternurinhas” (assim chamava as pessoas de bem, bacanas e alto-astrais). Mentia. Omitia. Mas, no fundo, eu sei que não se orgulhava. Uma vez, quando eu perguntei por que tanta amargura, disse pra mim que gostava de pensar que a ternura poderia um dia vir em latas decoradas, que nem pannetone, que você compra, se delicia e depois guarda outra coisa na lata. Ou só guarda mesmo pra lembrar-se do sabor e do cheiro. “Falta ternura no mercado”. E ela achava que um dia ia chegar. Assim. Que nem magia.
Por exemplo, quando ouviu Larissa dizer que amava o ex, seu estômago revirou. Achou nojento. “Coitada. O que é a paixão... O que é a carência...É o que dá se envolver.” Na minha frente. Eu apaixonado. Era o que ela realmente gostaria de falar pra Larissa, mas não podia. “Claro que não. Com amigos a gente mede palavra. Não é assim, na bucha: ‘Se toca’”. Acreditem: ela era muito capaz de dizer isso... Já disse pra mim.
E enquanto Larissa contava sua dor de amar, Nora ouvia com cara de asco. E depois de ouvir tanta benevolência, tanta falta de mágoa, tanta amabilidade, a repulsa se transformou (susto!) em empatia, mais tarde, depois que a gente viu aquele filme cabeça. “ Como é bonito ver um alguém que não consegue odiar...O mundo tem jeito. E, graças a Deus, não sou eu quem vai promover essa mudança. Tem gente melhor pra isso”. Ah, vou confessar, achei bonitinho quando ela falou assim. Ela tentou... Mas ficou esquisito: o ar de arrogância junto com o comportamento autodestrutivo. Era demais pra mim. Desisti de entender.
Talvez Nora tenha esperanças de ser amada um dia. De dizer pieguices, ouvir Carpenters, ficar horas pendurada no telefone com voz de criança, ser traída, correr atrás do amor perdido e chorar de verdade. Por amor. Sem pensar. Quem sabe ser uma Ternurinha. Eu não consegui.
Talvez ela esteja um pouco entediada.
Nora merece tão mais...
Um pouco de delicadeza, quem sabe..
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
Superfície da alma
Eu adoro superficialidades. Faço de tudo pra este blog sempre ser pseudoprofundo. Comparado a uma cárie que não chegou ainda na dentina. Não dói, mas incomoda bastante.
Ser superficial, pra mim, não é ser vazio. É muito além de ser alegre. Tem a ver com plenitude e saber vibrar de acordo com o ambiente. No fim, é deixar-se levar. Ser mais leve um pouco.
Para chegar até o lado oposto e perceber do que eu falo, lembrem daquelas discussões densas, que envolvem aqueles tipos irritantes, em geral leitores de orelhas de livros, defensores da música alternativa que ninguém conhece e das idéias furadas sobre intelectualidade. Discussão boa pra mim é sobre sabor de jujuba... Ou sobre como Paul McCartney perdeu o dente na década de 60.
Quando saio de discussões densas, tenho duas impressões: a de que eu sou mesmo muito chata e que preciso de álcool para ir até o fim. As duas impressões me deixam com dores de cabeça.
Pessoas leves são tão sutis ao se expor que você nem percebe a presença delas. Salvo pelo cheiro de baunilha ou de bala Soft que elas deixam no ar... Aquele cheiro doce e gorduroso dos parques de diversões, que ativam imediatamente os neurotransmissores de serotonina dos cérebros.
Quando falam, parece que tem uma sinfonia divertida acompanhando ao fundo essas vozes tão musicais (e sim, macias que nem um travesseiro). Não são monótonas como eu. São muito vivas e fazem gestos alegres, como que te chamando para o lanche da tarde. Adoráveis. E ponto.
Meu Deus, como eu adoro pessoas superficiais. São transparentes que nem água de nascente. Onde a gente nada, nada e nada, sem querer saber onde toda aquela pureza vai desaguar...
Acho que ficou profundo demais para um texto sobre superficialidades. É o que eu mais lamento às vezes. Não ser tão leve e etérea assim.
Conheci criaturas superficiais que são muito especiais em minha vida. Aprendi muita coisa com elas todas. Entre elas estão minha avó paterna; minhas amigas Tarsila e Jenny; minha tia Márcia; meu já falecido gato Fred; a escritora Lulih Rojanski e meu irmão Gabriel; a todos dedico este texto.
Valeu!
Ser superficial, pra mim, não é ser vazio. É muito além de ser alegre. Tem a ver com plenitude e saber vibrar de acordo com o ambiente. No fim, é deixar-se levar. Ser mais leve um pouco.
Para chegar até o lado oposto e perceber do que eu falo, lembrem daquelas discussões densas, que envolvem aqueles tipos irritantes, em geral leitores de orelhas de livros, defensores da música alternativa que ninguém conhece e das idéias furadas sobre intelectualidade. Discussão boa pra mim é sobre sabor de jujuba... Ou sobre como Paul McCartney perdeu o dente na década de 60.
Quando saio de discussões densas, tenho duas impressões: a de que eu sou mesmo muito chata e que preciso de álcool para ir até o fim. As duas impressões me deixam com dores de cabeça.
Pessoas leves são tão sutis ao se expor que você nem percebe a presença delas. Salvo pelo cheiro de baunilha ou de bala Soft que elas deixam no ar... Aquele cheiro doce e gorduroso dos parques de diversões, que ativam imediatamente os neurotransmissores de serotonina dos cérebros.
Quando falam, parece que tem uma sinfonia divertida acompanhando ao fundo essas vozes tão musicais (e sim, macias que nem um travesseiro). Não são monótonas como eu. São muito vivas e fazem gestos alegres, como que te chamando para o lanche da tarde. Adoráveis. E ponto.
Meu Deus, como eu adoro pessoas superficiais. São transparentes que nem água de nascente. Onde a gente nada, nada e nada, sem querer saber onde toda aquela pureza vai desaguar...
Acho que ficou profundo demais para um texto sobre superficialidades. É o que eu mais lamento às vezes. Não ser tão leve e etérea assim.
Conheci criaturas superficiais que são muito especiais em minha vida. Aprendi muita coisa com elas todas. Entre elas estão minha avó paterna; minhas amigas Tarsila e Jenny; minha tia Márcia; meu já falecido gato Fred; a escritora Lulih Rojanski e meu irmão Gabriel; a todos dedico este texto.
Valeu!
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