segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Nº 1

Dentro da saladeira, aqueles camarões graúdos e rosados que imploravam maionese, roubavam o aroma das ervas frescas. Eram um espetáculo à parte: croutons dourados que dançavam em manteiga derretida, fazendo um barulhinho estalado que sugeria a textura.
Sílvia acompanhava tudo, vigiando o macarrão com desconfiança de esposa. Um minuto a mais e o ponto ia-se embora. Macarrão é um prato carente. Exige atenção redobrada para satisfazer o nosso paladar. Um descuido ou atenção demasiada para o molho e, traição! Escorrega mesmo.
Depois do jantar pronto, ela arrumou a mesa como no restaurante. Velas, flores e a melhor prataria. Vestiu seu melhor vestido e serviu o próprio prato. Então comeu. Mas saboreou os detalhes. Sentiu os aromas com menos pressa que o normal. Permitiu-se sujar o vestido com molho e desbotar o batom dos lábios. Usou guardanapos de seda. Sabia que não iria utilizá-los depois.
Sílvia levantou-se devagar da mesa. Com os olhos marejados, apoiou-se no balcão para despedir-se daquele santuário, o seu local de trabalho. Era óbvio. A cozinha sentiria também a falta das mãos delicadas arrumando o balcão para os homéricos espetáculos gastronômicos ali realizados. Também as sopeiras sentiriam falta do suor adocicado que provocavam nas têmporas de Sílvia. As facas já preferiam ficar cegas a não acharem mais os dedos finos e distraídos. E o fogão... O mais sentido de todos. O que penetrava sempre a intimidade, aquecendo-lhe a barriga... O avental perdeu a forma acinturada, pendurado flácido na área de serviço...
Foi uma penosa despedida. E num lance de vertigem, a cozinheira condenada pelo câncer sentiu o peito apertar, a jugular dilatar e o ar lhe faltar. Como sempre, em tudo na sua vida, o coração falou mais alto. Mais alto que o tumor. E mais alto que a tristeza, pois seu último pensamento dizia: “O macarrão estava perfeito. A salada de camarão foi a melhor que comi em toda minha vida.”
Sílvia era alérgica a camarão. E sabia disso.

4 comentários:

Paulinha disse...

O que senti ao ler: uma tristeza linda.

*.::*(( jOhn ))*::.* disse...

karaka! karaka! karaka!!!mil vzs karaka!!!!
você escreve mto bem!!
conheço algumas pssoas que escrevem, é claro, cada uma com suas características particulares..mas sua aptdão pra descrever com clareza as cenas me impressionam mto!
não sei se é mania feia de quem escreve, mas tem uma passagem q eu
adorei ler e reler várias vzs:
"Macarrão é um prato carente. Exige atenção redobrada para satisfazer o nosso paladar. Um descuido ou atenção demasiada para o molho e, traição! Escorrega mesmo"..
passagem textual demais!!mto MASSA msmo...
Ah, e me vi no texto: tb tenho alergia a camarão! =p

Abraço...

Luiz Felipe Leal disse...

o que senti ao ler: sua ausência lhe fez bem. O verde está escarlate.


abraço forte.

Laura Cohen disse...

fofurinha de blog! Amei! Vc faz o que nas letras? Beijugos