segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Nº 3

Saulo adorava sentar naquela cadeira à esquerda, dentro do ônibus, atrás do motorista. Era mais alto de lá, mais perto da porta, da janela, e, no mais, era Seu Lugar. De Seu Lugar saíam poesias, idéias, monólogos e até palestras.
Pegava o ônibus sempre no primeiro ponto, depois que saía da garagem. Sentava em Seu Lugar e ali permanecia, curtindo aquela meia hora de meditação.
Um dia, ao subir no ônibus, deparou com uma surpresa enrugada: um velhinho sentado em Seu Lugar. Cabelos brancos, devidamente agasalhados no chapéu xadrez, roupinha de missa e um pacote de remédios. “Típico...”, devaneou Saulo. Inofensivo? Não para Saulo. A cada ponto que passava, seus pensamentos se desordenavam. Em pé, bem ao lado de Seu Lugar, ondas de raiva começavam a passear pelo seu corpo. Iam à sola do pé e arrepiavam sua espinha. Num ciclo cada vez mais rápido, as ondas só o faziam pensar que ele precisava arrumar um lugar para o ancião audaz. E rápido! Entre uma onda e outra, pensou em simular um desmaio, puxando o casaco do seu adversário e suplicando misericórdia. O plano foi abaixo quando o velhinho tossiu feio e de verdade, despertando a comoção da maioria dos passageiros no ônibus. “Sem Meu Lugar, espremido por esse monte de gente acudindo o velho e ainda em pé!”, praguejava sincero e aflito.
Até que o veículo pára. Estanca na frente de outro ponto de ônibus. “É. Deu prego.”, sentenciou o motorista. Saulo sai do ônibus com cuidado, sempre olhando para trás, deixando a confusão com o velho doente e sua tosse ameaçadora.
Logo avistou outro ônibus. Fez sinal. Entrou pela frente e, com o coração palpitando, viu Seu Lugar vazio. Estava intacto.
Aquela meia hora passou leve, lenta e deliciosamente prazerosa. Era impossível esconder o sorriso dali de cima.
Saulo transbordava felicidade.

2 comentários:

*.::*(( jOhn ))*::.* disse...

kara, esse Saulo é estranho...¬¬

(e quem não é?)

vanessa disse...

cada passageiro no seu banco!
muito bom!
(www.vanessacamposrocha.zip.net)