segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Nº 2

Jade, 5 anos, no banco de trás do carro, estava eufórica. Brincou a tarde inteira, compraram sua boneca favorita e ainda comeu na lanchonete que vende brinquedos e dá sanduíches de brinde.
Tarde mais perfeita que esta nunca existiu nem existirá na sua vida.
Jade, 10 anos, no banco de trás do carro do seu pai, estava encantada. Apresentou-se a tarde inteira no festival de dança e ganhou uma estrela de “Pequena grande dançarina”. E ainda comeu na lanchonete que vende brinquedos e dá sanduíches de brinde. Mas desta vez, preferiu sem picles.
Tarde mais perfeita que esta nunca existiu nem existirá na sua vida.
Jade, 15 anos, ao lado da sua mãe no carro, estava apaixonada. Beijou a tarde inteira, passeou de mãos dadas, tomou Milk-shake dividindo o copo... E ainda comeu na lanchonete que vende brinquedos e dá sanduíches de brinde. Guardou o brinquedo para seu irmão mais novo.
Tarde mais perfeita que esta nunca existiu nem existirá na sua vida.
Jade, 25 anos, dirigindo seu carro, estava bêbada. Bebeu a tarde inteira, falou bobagem, pagou mico no chá de panela e acha que beijou o stripper da sua despedida de solteira. Acabou de ser promovida no trabalho. Mas não lanchou na lanchonete que vende brinquedos e dá sanduíches de brinde porque estava de dieta.
Tarde como esta...
E Jade, 75 anos, na cadeira de balanço, estava velha. Bordou a tarde inteira, dormiu e sonhou com o paraíso. A lanchonete que vende brinquedos e dá sanduíches de brinde já havia falido. Mas ela se lembra do grande “M” amarelo num fundo vermelho. Lembrou também das tardes mais perfeitas que já existiram e nunca mais existirão na sua vida.
Aí, enfim, foi a tarde perfeita.

Nº 1

Dentro da saladeira, aqueles camarões graúdos e rosados que imploravam maionese, roubavam o aroma das ervas frescas. Eram um espetáculo à parte: croutons dourados que dançavam em manteiga derretida, fazendo um barulhinho estalado que sugeria a textura.
Sílvia acompanhava tudo, vigiando o macarrão com desconfiança de esposa. Um minuto a mais e o ponto ia-se embora. Macarrão é um prato carente. Exige atenção redobrada para satisfazer o nosso paladar. Um descuido ou atenção demasiada para o molho e, traição! Escorrega mesmo.
Depois do jantar pronto, ela arrumou a mesa como no restaurante. Velas, flores e a melhor prataria. Vestiu seu melhor vestido e serviu o próprio prato. Então comeu. Mas saboreou os detalhes. Sentiu os aromas com menos pressa que o normal. Permitiu-se sujar o vestido com molho e desbotar o batom dos lábios. Usou guardanapos de seda. Sabia que não iria utilizá-los depois.
Sílvia levantou-se devagar da mesa. Com os olhos marejados, apoiou-se no balcão para despedir-se daquele santuário, o seu local de trabalho. Era óbvio. A cozinha sentiria também a falta das mãos delicadas arrumando o balcão para os homéricos espetáculos gastronômicos ali realizados. Também as sopeiras sentiriam falta do suor adocicado que provocavam nas têmporas de Sílvia. As facas já preferiam ficar cegas a não acharem mais os dedos finos e distraídos. E o fogão... O mais sentido de todos. O que penetrava sempre a intimidade, aquecendo-lhe a barriga... O avental perdeu a forma acinturada, pendurado flácido na área de serviço...
Foi uma penosa despedida. E num lance de vertigem, a cozinheira condenada pelo câncer sentiu o peito apertar, a jugular dilatar e o ar lhe faltar. Como sempre, em tudo na sua vida, o coração falou mais alto. Mais alto que o tumor. E mais alto que a tristeza, pois seu último pensamento dizia: “O macarrão estava perfeito. A salada de camarão foi a melhor que comi em toda minha vida.”
Sílvia era alérgica a camarão. E sabia disso.

Fragmentos de felicidade expressa

Felicidade expressa é aquela felicidade de segundos, minutos, no máximo um dia. É aquela boa sensação de vitória quando ganhamos uma discussão besta. Aquele sorrisinho de lado que esboçamos aos excluídos quando passamos para uma área VIP. Ou o alívio que antecede a culpa por comermos um doce a mais ou fumarmos um cigarro a mais. Era pra ser um estado contemplativo. Era pra ser curtido sem culpa nenhuma. Mas é tão curto, dura tão pouco, que nem estado é considerado.
Imagino se um dia, por estarmos cansados da busca pela felicidade, começássemos a juntar todas essas passagens da alma humana que nos acometem em um fragmento único. A busca sofrida pela felicidade acabaria, com toda a certeza. Livros de auto-ajuda juntariam poeira nas prateleiras. Consultórios terapêuticos ficariam mais vazios que a própria proposta da terapia. E seria felicidade para jogar fora por aí. Daria até dor de barriga.
Logo, logo, a idéia inicial de felicidade expressa estaria acabada. Mais uma das minhas teorias furadas.
E em mim se instalaria um profundo vazio criativo.
Seguem, em três partes, fragmentos de felicidade expressa. Ou talvez expressões de felicidade apenas. Entendam da forma que acharem melhor.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

domingo, 28 de setembro de 2008

da série "detalhes" - A DOUÇURA DO IRRITANTE



- Acordar com canto de pássaros
- Sussurro da pessoa amada perguntando se você está dormindo quando, na verdade, está pegando no sono
- Vozes de : mãe irritada, John Lennon, Marcelo Camelo, Bob Dylan e Vanessa da Mata
- Receber um tapinha nas costas depois de um abraço
- O queijo derretido da pizza
- Soluço de neném
- Cócegas
- Estourar plástico-bolha
- Não conseguir jogar fora papéis acumulados pelo tempo (de extratos bancários a bilhetes fofinhos)
- Barulho de chuva na calha
- Gato miando
- Aquele barulho de gelo triturando na boca
- Talheres batendo em almoço de domingo
- Estômago roncando
- Sua avó mostrando fotos antigas suas para visita
- Minha avó repetindo as mesmas histórias
- Dormir de luz acesa
- Justificar qualquer falha com flores nas mãos
- Encontrar um amigo que só fala de amor e solidão em tardes de domingo

Certas coisas irritantes têm um fundo de doçura.

da série "detalhes" - O IRRITANTE DA DOÇURA


- Enjôo
- Balas que grudam nos dentes
- Abraço forçado pelas convenções, de meio corpo
- Ouvinte compreensivo demais
- Sandy
- Casamentos
- Cachorro carente
- Algodão-doce
- Cafunés
- Aqueles dois beijinhos que te dão ao te cumprimentar
- Sentimento de pena
- O olhar de Paul McCartney
- Vestidos floridos
- Crianças artistas
- Cheiro de baunilha
- Voz macia em palavras rudes
- Choro baixo
- Sorrisos demais (verdades de menos)
- Aeromoças

Certas doçuras são no fundo irritantes.

sábado, 6 de setembro de 2008

A pureza dentro das palavras

Não é que eu tenha voltado. Muito menos que a vida ande menos agitada que o costume novo. Continuo trabalhando, estudando e sem o menor tempo pra pensar no quarto verde. Nem no próprio quarto verde, o que dá nome a esse espaço, eu tenho dormido. Mas posto aqui pela velha e insana necessidade de escrever, amados...
Tudo o que tem acontecido nestes últimos dias contribuem para este post. Desde experiências alheias até as minhas próprias, também alheias.
Não lembro se cheguei a comentar aqui que faço faculdade de Letras. Se não, está aqui informado. Guardem esta informação. Ela é fundamental para que vocês entendam a minha relação com as palavras.
Fato maior é que ando meio preocupada com as pessoas no mundo. As do meu mundo, claro... Não sei, mas parece que elas não andam mais atentando para o que falam, o que prometem, o que precisam cumprir, honrar...
É muito difícil para mim, um alguém que ama lidar com palavras na vida e na carreira, ouvi-las e não relacioná-las ao significado na minha vida e ao que elas vão me proporcionar como conseqüência.
Certo, as palavras são importantes. Mas para mim, chegam a ser sagradas. EU tenho um pouco de obsessão com comunicação e expressividade. Por isso, tomo o maior cuidado quando vou usá-las.
Palavras são muito inofensivas em sua natureza. Permitem que você abuse delas; que brinque, destrua, desmembre e distorça-as.
É aí que mora o perigo. O que elas são capazes de fazer quando você se apropria delas. Ganham um poder espetacular, pois se juntam à retórica e ao estilo. Ao seu tom de voz. À sua letra. Ao seu conhecimento ou não sobre elas. Aí, elas pertencem a você. Esta é a relação mais apaixonada que existe: a das palavras com nós mesmos. Elas possuem uma ligação com a gente que pode nos enlouquecer...
Daí, as conseqüências são infinitas. Você pode se tornar tudo. Um gigolô das palavras, por exemplo, como o próprio Luis Fernando Veríssimo se define. Apenas as usa de acordo com sua vontade e se aproveita impiedosamente delas. Neste caso, você é um escritor muito do safado...
Outra alternativa é se tornar um bobo que tem medo delas. Não consegue escrevê-las, pronunciá-las, sussurrá-las ou lê-las. Muito menos cumpri-las, honrá-las, reformulá-las, desdizê-las ou mesmo estreitar as relações com elas... É com esse tipo de medroso que tenho me deparado ultimamente.
Quero crer, de todo o meu coração oco e sangrento, que sejam medrosos passageiros (não na minha vida, mas de um medo passageiro em si). Que sejam curados. E que nada deste medo tenha a ver com o caráter, mas, sim, com pura inabilidade mesmo.
Estes tipos de medrosos causam as maiores decepções na alma de pessoas como eu: os escravos das palavras. Aqueles que necessitam ouvi-las, senti-las, percebê-las nos olhos de quem nos fala; que necessitam vê-las se cumprindo.
As palavras são puras. Nós somos os corruptores.
Texto triste e chateado.