terça-feira, 24 de setembro de 2013

Céu de ternura


Maria Antônia divertia-se muito no parque. Admirava as crianças com brinquedos caros que sujavam na areia, invejava os que ostentavam guloseimas de parque nas mãos, sorria discretamente quando um sorvete caía na areia... Não gostava de brincar com os outros. Às vezes ficava triste por ser tão pequenina e sentia os olhos encherem d’água quando os colegas riam de seu tamanho. Ali no parque, ela observava todos de cima do banquinho. Podia brincar que era a chefe de tudo e que poderia prever o que acontecia. Como o pipoqueiro que chegava antes do menino de blusa xadrez. Ou o ônibus, que trazia a velha senhora e a netinha de cabelos crespos. “Parece uma nuvem”, sempre pensava. Poderia prever a melodia que saía dos autofalantes.  E, principalmente, prever aquela hora da tarde.
Era um sorriso gigante quando ouvia aquela moça que adotou como mãe chamar: “Hora de ir!”. Mal continha o pulular do coração dentro do peito de boneca.  Sentia que não ia dar conta da felicidade que era segurar a mão para a moça altíssima e elegante que sempre a olhava com ternura. Pensava naquela frase de filmes que não sabia exatamente o que significava. “Me concede a honra desta dança?”. Sabia que era uma boa frase pra pensar naquele momento.
O bracinho curto se esticava “do tamanho do mundo”, enquanto os pés mal tocavam o chão. E quando tocavam, era tempo de dar o impulso que Maria Antônia aguardava a tarde inteira, o impulso que a fazia levitar até à cintura da mãe, que a segurava forte por um tempo no ar, pra depois continuar os passinhos apressados, entre  impulsos que empurravam o chão e a faziam ir cada vez mais alto.
As gargalhadas eram fáceis. De vez em quando, ao chegar no alto, olhava pro chão e sentia-se maior. Tudo era esquecido: os sorrisos de deboche, as limitações, a rejeição... Maria Antônia podia voar.
E voava em céu de brigadeiro, entre nuvens de algodão e glacê que um dia comeria sem restrições. E ainda tinha um caminho de casa inteiro para sonhar...
Maria Antônia era grande.              


terça-feira, 27 de agosto de 2013

A maior sensação do mundo

Pascoal morava só. Tinha um violão. Era o melhor violão do mundo. O som que fazia juntava-se à harmonia da solidão uníssona de uma cobertura daqueles bairros de classe média alta. Almoçava fora todos os dias. Restaurantes diferentes, vinhos refinados. Eram os mais caros, que traziam vigor e frescor ao seu paladar.Os livros de culinárias serviam apenas para a decoração. Aliás, o “apê” era decorado com mobília assinada e escolhida a dedo pela maior autoridade em design europeu do mundo. Seguia o I-ching na disposição dos móveis (que não é europeu, mas tudo o que é oriental ecoa o que é de melhor no mundo). Era o melhor apartamento do mundo. Tinha um emprego vitalício. Trabalhava as oito horas diárias exigidas pela lei trabalhista. Até preferia. Era perfeita a contagem dos seus dias. Calculava os quinze minutos pra ir, pra voltar, os sete da parada do café, mais oito minutos dos cumprimentos e acenos (Pascoal era simpático). Tudo contado, perfeito, cronometrado, simétrico, direito, correto, harmônico, regular. Ainda sobrava tempo para os lazeres da vida. Os melhores filmes, melhores livros, melhores canções. Era o melhor momento de todos. E controle era a melhor sensação do mundo. Certa vez, ao comprar seus tênis na melhor loja do mundo para fazer o melhor dos exercícios, deparou-se com uma cena que paralisou o sorriso plácido: uma moça chutava o caixa eletrônico, numa tentativa frustrada de recuperar algum dinheiro que havia perdido em algum mau uso da máquina.

 Mariana mal podia acreditar no que seus olhos viam na tela : “SALDO INSUFICIENTE”. Era, com certeza, o pior dia de todos. Não bastasse o despejo, não bastasse o emprego, as cordas do violão quebradas, a vida em pedaços, o coração em frangalhos... Era o pior momento de todos. E descontrole era a pior sensação do mundo. Na melhor das intenções, Pascoal ofereceu café, sorriso e companhia. Mariana aceitou, pois, na pior das hipóteses, sofreria por amor novamente. E o que seria novidade?

 Pascoal se rendeu ao ângulo perfeito do abraço de Mariana; os braços se encaixavam no torso de uma forma que nunca mais sairiam do lugar enquanto ele não pedisse. Mariana fotografava mentalmente o nariz vermelho de rinite que Pascoal tinha nos dias de chuva, trazendo à memória toda a ternura das lembranças de infância recheadas de maçãs do amor e corações vermelhos do caderno. Pascoal sentiria no perfume dela o cheiro exato de dama da noite. Ela se derreteria pelo sorriso torto de dentes pequenos dele. Ele amava o bife ao ponto que ela fazia. Ela se deliciava com o leite empelotado que ele não sabia fazer. Pascoal achava que Mariana era a mulher mais bonita do mundo. Mariana achava que Pascoal era o pior violonista do mundo. Mas era o mais charmoso, o mais terno, o que fazia a melhor sopa e o que mais se importava. Mariana era a mulher mais feliz do mundo, tinha o melhor namorado de todos. Nunca havia sido tão feliz em meio tanta imperfeição. Estava apaixonada. E esta era a melhor sensação do mundo.

Já Pascoal viveu a pior crise de ciúmes quando ela atendeu àquela ligação. Sentiu que era o último dos homens quando um dia a fez chorar. Sim, Pascoal era o pior mentiroso do mundo quando quis esconder seu amor por Mariana. Nunca havia sido tão miserável em meio a tanta perfeição. Estava apaixonado.

 E esta era a pior sensação do mundo.

sábado, 25 de agosto de 2012

O dezembro de Deusalina

Lavar, passar, lavar. Este foi o ano de Deusalina. As mãos calejadas sabiam do sucesso que foi o ano. Deusalina era campeã. Naquela manhã, sairia para comprar sapatos novos para Arlindo, calças para Arthur, saias para Argélia, cuecas para Amiraldo, e um terno novo para Artinson, que tinha terminado o supletivo. Para ela, compraria um chapéu. Nunca na vida tinha usado um chapéu para ir à missa, como Judite e Elisa usavam. “O sol castiga a pele da idade”, elas diziam. Deusalina pensava que a vida já lhe castigara bastante a pele. Mas que um lindo chapéu com flores na lateral seria um bom presente de Natal para quem lava e passa pra fora. Deusa, como lhe chamava uma das clientes, pegou o ônibus e foi às compras no centro da cidade. O dia sombreava bonito em suas feições cansadas, mas muito bem feitas. Era uma mulher bela, meio curva do trabalho de anos, os cabelos brilhosos e de boa conversa. Antes de se casar com Benedito, já tinha algumas promessas de casamento de outros rapazes da cidade que deixou para viver na capital. Logo que Benedito se foi, “de males da bebida”, passou a criar os filhos “na beira do tanque”, como gostava de falar. Deusalina andava rápido, com a mesma esperteza que herdara da mãe costureira. Não costurava também por lhe faltar paciência (“cinco filhos, minha rica irmã...”) e vista boa. E a passos largos a mulher andava pela cidade, procurando os presentes-prêmios e cuidando para não se atrasar, pois era necessário chegar em casa cedo para preparar a ceia. E ainda tinha a roupa da Drª Suzana pra entregar. Comprados todos os presentes, sentou-se a estação de ônibus para repousar as pernas. Gostava de ver o movimento da cidade nos dias agitados, como a véspera de Natal. Crianças e adultos tinham sorrisos sádicos de desespero por ter, acrescentando ao nublado do dia um significado esquisito. Deusa apenas contemplava. Há anos não tinha um Natal digno, em que poderia fazer compras, gastar e desprezar os pedintes. O ônibus chega à estação. Deusa corre os olhos pelos bancos, procurando as sacolas de compras. Era certo: foram roubadas em um segundo de distração. Um misto de horror e tristeza rasgava o peito da lavadeira do ano. As sacolas eram seu prêmio que mal pode erguer e mostrar. Exceto por uma, esquecida no canto, desprezada pelo ladrão. Lá estava: o lindo chapéu com flores na lateral. Naquele momento, a lavadeira se misturou à multidão. O horror e a tristeza do coração deram lugar ao sorriso tenebroso da vaidade. Deusalina voltou pra casa inebriada pelo espírito natalino.

O maio de Mariana

Mariana vai se casar com Silas em poucas horas e tudo será perfeito. Comprou o vestido em um brechó em Paris e mandou a costureira ajustar. Encomendou o melhor buffet da cidade , com chef premiado.Os sapatos serão assinados por um estilista renomado.Cabelo e maquiagem escolhidos a dedo, com semanas de teste. Também testou a cerimonialista, os padrinhos, o pajem e as damas de honra (trocadas três vezes!). Tudo saiu do jeito que planejou: floristas, orquestra, padre italiano, igreja tradicional e disputada, comida deliciosa, bebida para descontrair. Uma pista de dança para os descontraídos. A música do casal, ela mesma escolheu. Viu num filme e achou que combinaria com o estilo de festa que determinou. Mariana ia se casar com Silas.O noivo de seus sonhos.Funcionário federal, bonito, inteligente e de ótima família. Os sogros a adoravam; diziam que ela havia caído do céu. Mariana era um anjo, de fato. E ela sabia que era. O álbum de fotos seria quase uma obra de arte. Pediu ao fotógrafo que captasse o amor verdadeiro nos olhos do casal e que “por favor, fotografe meu lado fotogênico, o direito”. Mariana esboçava um sorriso angelical diante do espelho. “Perfeito”. Tinha certeza que o vestido lhe cairia bem. Era certo que o véu a deixaria esplêndida. Não, não haveria olhos para outra mulher naquele dia. Era ela. Apenas Mariana. Não tinha notícias de Silas desde a manhã anterior. Achou de bom tom ver o olhar de deslumbramento do noivo apenas no altar. Sabia que o futuro marido teve uma boa despedida de solteiro, do jeito que os preparativos e roteiros de casamentos pediam. E que a amava profundamente. E que era fiel e correto. Calado, de sentimentalidade medida, do jeito que ela sempre quis. “Silas foi a escolha certa”, dizia para o reflexo no espelho, retocando a maquiagem. Chegava a hora. O fim de tarde era bonito; o sol diluía-se nos cabelos cada vez mais dourados da noiva. Admirando ainda o belo trabalho da costureira, mal ouviu os passos apressados por trás da porta. - Mariana?! – era uma voz masculina. - Querido? É você? - ... Não... É o Jorge. Você pode abrir? - Pode entrar. Está aberta. Jorge entrou. Seu rosto estava sem cor. Mariana não percebeu as lágrimas que cobriam o rosto do padrinho. O véu estava caindo por conta do vento que subitamente invadia o quarto. Era necessário ajustar. - Mariana... – Jorge embargou a voz. - Eu sei... O vestido ficou mesmo divino! – dizia ainda para o reflexo do espelho. - Mariana, você precisa se acalmar... A moça virou-se plácida, para dizer que não estava nervosa. Ao se deparar com o rosto desfigurado pela tristeza de seu amigo, não conteve o pânico. - O que aconteceu? - O Silas, minha querida... – e Jorge tentou abraçá-la, num choro silencioso e sentido. A noiva se desvencilhou dos braços do rapaz com fúria, saindo pela porta aos berros. - Ele sumiu, não foi? Cadê ele? Onde está? Os que se reuniam na sala tentaram segurar a mulher de véu rasgado e vestido aberto. -Alguém pode me dizer onde está meu noivo????? E, mal podendo se convencer de que o seu dia havia acabado, sentou-se no sofá para saber do ocorrido. Na madrugada anterior, houve um acidente. A estrada estava em obras e os motoristas deveriam desviar antes do buraco feito para os reparos. Um motorista desavisado não desviou. O carro despencou em um precipício em alta velocidade numa tentativa falha de desviar o caminho... Não houve sobreviventes. Silas não dirigia. Estava no banco do carona daquele carro, que era dirigido por uma mulher. Mariana ia se casar no dia 15 de maio. Mas guardou o vestido, o véu, os sapatos, as lágrimas, o rancor e, bem no fundo da alma, a convicção de que o dia perfeito de seu mês favorito ainda chegaria.

O julho de Juliano

A chuva caía sem dó pela cidade. Não tinha pena dos bueiros entupidos, dos varais de donos desavisados, dos telhados quebrados, das casas sem baldes ou dos passantes atrasados. E, sobretudo, dos sapatos novos de Juliano. - Que bela porcaria. - mal podia acreditar. Era por isso que detestava a chuva. Molhava seus sapatos, pés, calças, panturrilhas, planos... Encharcava de lama sua pasta de documentos, sua carteira vazia e seus sonhos ensolarados. Não gostava de guarda-chuva. O nome do objeto lhe causava asco, revelando o pensamento birrento e pueril. - Pra que diabos eu quero guardar a chuva? E retomava os passos (in)conformados. Tinha raiva das nuvens que embaçavam o raciocínio, fazendo-o apenas lamentar e maldizer os pingos (cada vez menos espaçados) que caíam do céu. - Vou me atrasar para a entrevista. E o que é pior, vou chegar todo molhado. E o ex-futuro-chefe ainda perguntaria: “Você não tem um guarda-chuva?”. Apressando o passo abastecido de ira e orquestrado pelos trovões, Juliano resolveu procurar abrigo até passar o temporal. - Maldita chuva! Que dia péssimo! Pensou na conta de água. Uma ironia. Não tinha dinheiro pra pagar por algo que agora lhe atrasava a vida. Pensou no seu apartamento. Como pagar o aluguel se não conseguir o tal emprego? E, por fim, pensou nos sapatos novos. Era o que matava; puro couro italiano estragado pelas poças d’água. Mas antes que pensasse em algo mais, Juliano ouve o celular tocar. Era a secretária da empresa que o contrataria. “Não haverá mais entrevistas hoje. O carro do nosso gerente ficou preso na estrada por causa do temporal. Entraremos em contato.” -Santa chuva! Juliano caminhava plácido por entre as gotas alegres da garoa marota. Como era revigorante um banho de chuva!

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Coisas que você não sabe sobre mim

Sobre mim, você não sabe. Não sabe que eu tenho aversão a macarrão malcozido. E a todo tipo de comida malfeita. Essa gordurinha, você sabe sobre mim. Mas não sabe se é de ansiedade, doença ou safadeza. Se é doçura, fofura ou gordura. Você não sabe do meu ritual pra cuidar dos pés. Que não durmo sem conferir se as portas estão trancadas duas vezes. O meu pavor de ficar só em casa, você não sabe sobre mim. Da minha mania de falar inglês sozinha. A dança que eu inventei pra “S’wonderfull”. Sobre mim, você não sabe que eu imito os outros quando eles me criticam. Não sabe que eu fiz curso de flauta doce. Que eu quase morri, você não sabe. Sobre mim.

Mas sobre você eu sei. Sei que você fica nervoso quando eu fico quieta. Que você ri de piadas sujas. Eu sei que você não tem paciência pra os filmes que eu escolho; que você esconde seu cd do Lionel Ritchie quando vou a sua casa. Você usa meias coloridas, eu sei. Você já fumou escondido, já ficou envergonhado numa roda de bar, usou dicas de sites pra paquerar. E eu sei que você não entende de vinho. Eu sei que você não está apaixonado. Isso tudo eu sei sobre você.

Sobre mim, você só passou. Sobre você, eu senti.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Madrugada em um ato.

Cena 1.
Cenário de casa velha. Vasos com plantas secas e malcuidadas. Grupo de pessoas que acabou de se conhecer. Todos inebriados da madrugada.

Plínio: - E você? (vira-se de frente pra moça ao lado). Caladinha aí... Pode ‘omitir’ sua opinião a ‘despeito’?
Magda (olhar desconfiado e confuso seguido de um meio sorriso): - Err... Se bem que ‘omitir’ a ‘despeito’... (olha diretamente para Plínio. Balança a cabeça impacientemente). Esquece.Bem. Olha, acho que é uma situação de forças opostas, porém de igual poder; a decisão tomada é relevante no quadro atual, pois se trata da visão de consciência que se tem daqueles que decidiram. Sendo assim, não acredito que haja muito o que mudar, já que certos valores estão incrustados. Percebo que tudo o que se prega é utópico.
Plínio (de sobrancelha erguida) – Também concordo. É ‘um tópico’. E tem que discutir a ‘despeito’. (sorve um gole de bebida)
Entra o professor Pasquale e dá um tiro em Plínio. Fecham-se as cortinas. Fim de cena.

Baseado em fatos reais. Tirando a parte do... Não... Err... Esquece.

domingo, 25 de setembro de 2011

O Palhaço.


Ele chegou na mesa do bar com seus óculos muito distintos. Tinha a risada contida, o passo contido, a veia esquerdista nem tão contida, mas distinta também. Ele é o Intelectual. Estavam discutindo alguma coisa muito importante, ele, o Artista, o Crítico e o Bajulador.Todos muito inteligentes (talvez o mais fosse o bajulador, por ser primo próximo da Falsidade), resenhavam sobre chagas sociais. ...
o Intelectual deixou clara e exposta sua opinião político-social-religiosa-moral-sei-lá-o-quê-mais,expondo todos os argumentos plausíveis e necessários para a discussão na mesa do bar cult...
Então surge o Bêbado.Pode ser aquele lá do chapéu-coco, que muitos até chamam de Palhaço. Aquele que na sua "palhaçada", é alvo de risadinhas sarcásticas. Pois eis que, de tanto ouvir chacota e risadinha desbotada de ironia, ele resolve tropeçar naquele monte de argumentos, rolando entre as poças de elouquência de tantos egos juntos, fingido molecamente vários desmaios por entre os intervalos de réplicas e tréplicas, para, finalmente, cair de bunda no chão. Não tendo mais onde se escorar, nem mesmo no desprezo de toda aquela gente tão culta daquele bar tão inteligente,
ele prefere juntar o chapeuzinho e sair cambaleando.
Mas não sem antes, sabiamente, dizer no auge de sua ebriedade : "A intolerância é uma merda."
Foto: Rui Miguel

terça-feira, 19 de julho de 2011

Souza e Das Dores ou “ O medo de amar é o medo de ser livre”

"O sol levantou mais cedo
E quis na nossa casa fechada entrar
Pra ficar"

De todos os medos, o mais ilógico. Chorem rios, beijem-se e sejam loucos, por fim. E vejam o sol levantar mais cedo...

Das Dores ou “Fato consumado”

"Eu quero é viver em paz
Por favor me beija a boca
Que louca, que louca"
Para com isso. Isso dói. Você já está certa, e aí? Custava me explicar o que tinha acontecido? Tinha que ser por aqueles cd’s chatos, cuja (veja bem, estou usando a palavra “cuja”)música nem dá pra assoviar direito? Tinha que ser por aquele monte de palavra sem nexo, escrito em formato de “L”????????? Tinha que ser por aquele filme horroroso, com atores horrorosos, em uma língua horrorosa?? Sinais? Ora, Dores, por favor! Infelizmente você é assim... Eu te convido pra cantar, você quer contar histórias (o que New Orleans tem a ver com a nossa história?)...
E você sempre faz isso. Menospreza, o que é pior que simplificar. Acha-se merecedora do infinito. Mas de um infinito que só existe pra você. Que simplória você é. Posso não querer me aprofundar em tudo, posso ter te dado as costas e ido embora. Mas cá estou, pra viver de minha memória. Das Dores, me deixa em paz. E me beija a boca. Louca.

Souza ou “Cry me a river”

"Now you say you're lonely
You cry the long night through
Well, you can cry me a river
Cry me a river
I cried a river over you"


Chora. Você sabe que estou certa. EU falei naquela poesia... no cd do Miles e do Coltraine... no filme do Almodóvar. Você ia saber o que era sangrar. Assim como eu sangrei.Como? Lógico que você não sabe, NE? Eu te dava tantos sinais, Souza... Mas, infelizmente,você é assim. Explico a história do jazz e você me convida pra ir ver o Jorge Vercilo (“ele me faz cantar”)...
Você fez isso com nosso amor. Achou simples lidar com um sentimento dessa infinitude. Não basta delimitar, Souza. Que simplório você é. Chora aí, na minha porta, porque está sozinho. Pois saiba você, por mais clichê que isto seja, que uma lágrima não basta. Eu quero um rio inteiro de lágrimas. Eu chorei um rio por você.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Minha mãe, o carnaval e eu

As coisas mudam totalmente quando ela vem pra casa. Vovó faz lasanha verde (???), vovô pára de fumar cachimbo (“Isso vai matar o senhor”) e a empregada sorri quando brigam comigo.
Deve fazer uns três anos que a gente não tem o “Baile da família” na sede do clube de tênis da cidade. Ela organiza sempre que vem todos os anos. Mas ela foi embora pra mais longe de casa. Fiquei com o quarto maior, mais espaço para meus carrinhos e a sensação de que estou menor ou coisa parecida.
Mas esse ano, não escapamos. Ela está no telefone, dizendo que comprou uma fantasia de palhaço pra mim porque passará finalmente o carnaval aqui. Desligo o telefone, falo um palavrão que aprendi na escola, sou repreendido e me sento na mesa da cozinha. A notícia é dada para vovô e vovó, que começam a cantar uma marchinha. Eu não estou nada satisfeito. Primeiro porque minha orelha dói por causa do puxão. E penso na hora. O baile é um tormento pra mim. Sempre estou ironicamente patético na hora do discurso dela. Não me controlo. Meus primos passam o ano inteiro sacaneando comigo... E este ano será de palhaço... Estou rezando pra Nossa Senhora Protetora dos Meninos que se Fantasiam de Palhaço no Carnaval. Pra isso deve haver uma santa protetora. Tem que haver.
Ela é uma cretina, na verdade. Ela me deixa tão feliz quando a vejo que acabo me esquecendo o quanto não faz sentido uma criança de oito anos vestida de pirata ou marinheiro. Não importa, no fim. Ela me abraça e eu sinto os cabelos com cheiro de jardim cobrirem meu rosto. Aí ela me carrega e tanto faz se eu estou com uma peruca de palhaço.
E começa o baile. Não, não quero dançar, que chato. Vó, fala pro Juninho parar de puxar meu nariz? Não, não sei dançar. Minha peruca coça, vó. Não, tá muito calor, não quero dançar, já disse. Vô, é a terceira vez que o Juninho joga serpentina dentro da minha calça! Não, não quero um sarongue (?). Peraí! Confete na boca nã...
Tio Bené já tomou conta do salão. Juninho engoliu o apito, para a alegria secreta dos presentes.
Meu estômago tá fazendo aquele barulho esquisito. Chegou a hora... Ela, de melindrosa, vai falar aquilo que eu sempre temo. O discurso de despedida. Vamos todos chorar, satisfeita?
Com os punhos e os olhos fechados, eu sou palhaço mais nervoso do mundo. Ela está falando. Acho que é algo sobre união, família ou amor. Não estou nem aí. Só não quero que acabe. Meus olhos estão fotografando e meus ouvidos estão gravando tudo. Não posso esquecer nunca. Ai não. É o fim. Não estou escutando mais nada.
Aconteceu de novo: eu no colo dela, implorando pra me levar junto e não me deixar. As lágrimas cheias de glitter mancham meu rosto de palhaço. E ela diz pra vovó ficar comigo, pois seu vôo é daqui a pouco.
Ela foi a primeira mulher a me abandonar. Confesso que não foi a primeira nem a última vez que banquei o palhaço na vida... Bom carnaval.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Da série “detalhes” - O ESGOTAMENTO DA SENSAÇÃO


Fonte: Getty Images

- Encher a barriga de água e ir comer.
- Desistir de escrever, seja lá o que for.
- A desistência em si.
- Dedos enrugados de água.
- Nariz vermelho, de espirro ou de choro.
- Barriga doendo de gargalhar.
- Baba de cachorro.
- Desligar a TV.
- Beijo seguido de beijo.
- Olhar para o teto.
- Briga de segunda.
- Flerte de sexta.
- Infidelidade de sábado.
- Solidão de domingo.

Toda sensação tem sua hora de esgotamento.

Da série “detalhes” - A SENSAÇÃO DO ESGOTAMENTO


Fonte: Getty Images

-Matar a sede de água.
- Dormir em cima de livros ou escritos.
- Barulho de chuveiro.
- Lágrimas de crise de espirro.
- Lágrimas de crise de riso.
- Lágrimas, enfim.
- O olhar inchado do choro.
- Beijo seguido de suspiro.
- Desfalecimento em abraço.
- O sofá e as boas-vindas do cachorro.
- Programa de vendas na madrugada.
- Fim de segunda.
- Começo de sexta.
- Briga de sábado.
- Ressaca de domingo.

Todo esgotamento deixa uma sensação.

Alta infidelidade

Estavam tomando vinho há muito tempo.
- Hum... Acho que nunca disse o quanto gosto das tuas sombrancelhas... Parecem desenhadas no teu rosto...
- Talvez porque as sombrancelhas sejam o desenho do rosto.
Jaime era lento com elogios. E metáforas e comparações. Já Sofia era péssima em fazê-los.
- Teus olhos são esverdeados, não é?
- Eles tem cor de avelã.
- Que cor tem a avelã?
- A cor dos meus olhos.
A noite ia adentro também questionando aquele encontro tão improvável. Ele tinha um berimbau na sala, almofadas indianas e uma quedinha por ela. Ela vestia preto, estava de colar e apaixonada por ele. Jaime despistara a namorada naquela noite. E Sofia topara ir até o apartamento. Àquela hora, a conversa não havia saído. Nem com as duas garrafas de vinho. A verdade era que os dois eram muito difíceis.
- Gostas de poesia?
- Prefiro histórias. Curtes Raul?
- Prefiro Renato Russo. Bob Dylan?
- Bob Marley. Godzila?
- Jurassic Park. Alegria?
- Quando chove. Agonia?
- Em dias quentes. Fantasia?
- De pirata. Tara?
- De espanhola. Cantar?
- Dançar. Cultura pop?
- Anos 80. Herchcovitch?
- Cavallera. McCartney?
- Em Helter Skelter.
Pausa longa. Neste momento a sala acabou por iluminar-se. Era o clima perfeito.
- Cama ou sofá?
- Sofá. Agora.
E assim eles se entenderam.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Criam-se homens

Para terem coragem. Honrarem sua palavra. Assumirem o compromisso de serem o que são. Defender. Criam-se homens por um motivo maior. Nós.
Criam-se homens para abrir a porta do carro. Para saber se estamos famintas. Para nos dar de comer, por mais que os olhos gulosos sejam os deles.
Criam-se homens para construir nossas casas. Elogiarem nossa comida. Para dizer que o vestido é que está curto, nunca o cabelo. Ou para dizer que não precisamos de maquiagem.
Admirarem nosso formato. Gostarem da doçura de nossos perfumes. Criam-se homens para cuidar do mundo. Do nosso mundo.
Acima de tudo, para serem dignos do amor. Do nosso amor, pois é o maior desafio dentre tantas missões destinadas a eles.
O mundo deles é cão. O nosso é caos. Criam-se homens para serem não nossos príncipes, mas nossos cavaleiros. Homens são criados no formato ideal para as mulheres.
Aqui eles são necessários. O mundo criado por eles é inadequado para nós. Mulheres precisam de homens. Porque o chuveiro, a porta e a lâmpada não se consertam sós quando quebram.
Nós também. Por mais que tenham sido por suas mãos brutas.



Nota: Este texto é um presente de aniversário. Ele vale por toda a admiração e carinho que tenho por ti. Obrigada por existir!

domingo, 1 de agosto de 2010

Paladar

Ele tinha um mar em sua boca. Era um gosto muito salgado de mágoa (o mar tem mágoa de não ser oceano...). Foi o beijo mais triste que já provei, até em momentos felizes.
E a língua morna (nunca de Mar Morto) que se contentava apenas com o meu céu, hoje dançou por outra galáxia. E lá conversou com as estrelas, descobriu seus planetas e lhe prometeu outras luas. Mas não ao meu universo... Um universo todo feito de açúcar e canela. E a sede? Era infinita. Não passava. Era sede de mar... Daquela que resseca por dentro...
Mas água salgada não mata sede de ninguém. Água salgada não é potável. Ele me disse, com ares de poeta bandoleiro (a pior espécie que pode existir entre os poetas fajutos) que eu era doce demais. E doce demais enjoa e dá dor de barriga. Assim, liricamente...
E me perguntam sobre a acidez das palavras, como se não soubessem dos finais de todos os romances da vida. É porque o doce, alguma hora nessa vida, acaba por azedar...

terça-feira, 18 de maio de 2010

Cheio das intimidades

Sempre escuto dizerem que a etiqueta, quando se trata da vida a dois, acaba se tornando impraticável. Bem. Tenho uma teoria. E um culpado também. O banheiro, senhoras e senhores.
Até hoje me pergunto: “Como é possível um casal dividir um banheiro?”. Este ato vai contra a prática do amor. Sério. Não deveria ser permitida esta divisão. Aliás, uma lei se encaixaria muito bem aí, pra proibir este ato. Estaria previsto no código penal, com o caráter hediondo... A pena seria dividir um banheiro pro resto da vida!
Não precisam ficar chocados. Dentro dele existem coisas piores. O banheiro foi feito pra isso. Imaginem só: aquela cebola debaixo do braço, o esgoto da boca e o queijinho do pé... Onde iriam parar? Debaixo da cama? Dentro do fogão? Errado. É lá. Naquele lugar insólito muitos problemas são resolvidos.
Porém, ao resolvê-los, este lugar guarda os nossos mistérios. O segredo do batom e da lingerie “levanta-e-segura-tudo-pelo-amor-de-deus!”, por exemplo. E não se deixe enganar pelo perfume de eucalipto e a suposta assepsia da louça branca: todas as saus fraquezas estão lá... Sim... Na tampa levantada, na calcinha pendurada, naquele barulho típico e na descarga que vai sim te denunciar.
Exemplo maior é o próprio banho. O banho é um ritual muito broxante, quando realizado pra sua verdadeira finalidade, que é a limpeza corporal. Não somos atores pornôs, não é tudo esfregação e sacanagem. É bucha pra tirar excesso de pele, gilete pra tirar excesso de pelo, aquelas duchas constrangedoras, prêmios de xampu, cantorias desafinadas e aquele monte de espuma ridícula no cabelo. E há de se refletir que touca de banho não é nada sexy. Agravante pra homens. Pior se forem carecas.
De certa forma, este lugar da nossa vida acaba sendo a maior passagem pra intimidade. E totalmente necessário. Percebam o esforço absurdo que deve ser achar aquele cara fedido e sujo depois da pelada ainda o homem da sua vida. Ou aquela pobre coitada com as pernas peludas e cinco dedos de raiz a retocar no cabelo ainda a mulher que você quer passar o resto dos seus dias junto... Viva o banheiro, então?
No fim, confesso ter uma admiração tremenda pelos que deixam seus amores invadirem este cômodo tão íntimo e obscuro de suas vidas.
Rachar a conta, meu amigo, é mole.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

"Atenção senhores passageiros... Preparar para a aterrissagem..."

E então ele acorda. Vai chegar a sua cidade natal (para o Natal), engordar com a comida da mãe e da avó, vai rever sua bela família, que dirá que ele está bem, bonito e forte. A família que lhe dizia belas palavras de incentivo das quais ele não lembrava. Apenas sua intuição dizia que daquelas pessoas tão bonitas, só poderiam mesmo vir palavras bonitas.
Ele é um novo homem. De sapatos novos e corte de cabelo novo, inclusive.
Olhando pela janela do táxi, ele vai dizer que o caminho mudou bastante, que tem menos árvores e, olha só!, aquele prédio não estava ali antes, hein...
Na frente da casa dos pais, notará uma cor nova na cerca, com um namorado à espera de sua irmã, que estará um pouco mais alta, mas não menos pentelha.
Perceberá ciúmes naturais de “cunhado” (como o rapaz insiste em chamá-lo sob seu olhar de protesto simpático, mas ainda protesto).
Notará rugas a mais, cabelos a menos e um cansaço que parece não vir de dias fatigantes, mas sim, de uma vida inteira dedicada a ele.
Verá mobília nova. Sentirá cheiro de desinfetante. Entrará no quarto intacto. Ouvirá seu também intacto rock’n roll. Pensará diante de seus discos que Paul sempre fora o seu preferido, no fundo, no fundo...
E entre tantas descobertas, ele se perguntará: “Onde estive durante tanto tempo?”
Em resposta, ouvirá o alarme de emergência de seu eterno piloto automático.

Este conto foi escrito para todos aqueles que não conseguem lembrar pelo menos UM acontecimento importante para si em cada mês deste ano.
Baseado nisso, meus desejos para 2010 são pelo menos 12 emoções memoráveis para todos... Também achei razoável, afinal, de emoções mornas, o ano tá cheio...
Boas festas.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

A curta história de Lynn

Toda vez que eu olhava para ele, me intrigava o fato dele ter cor de chocolate. Durante nossas corridas atrás de bola ou no pega-pega, nossos braços se esbarravam e, por alguns instantes, via-me cheirando ou provando o suor, para ver se ele era todo chocolate mesmo. Ou feijoada. Ou melado. Não pensava nisso à toa: eu era magro, muito branco, olhos fundos, com cabelos que escorriam pela minha cabeça enorme. E cheio de vermes. Chamavam-me Noah Minhoca.

Todos os dias, depois do almoço, Lynn saía batendo em nossas portas avisando: “Vamos vê-lo! O ônibus está vindo!”. Era a única linha que passava por nosso bairro. Grande, vermelho, barulhento e repleto de senhores e senhoras respeitáveis. Sentávamos na calçada, em ordem, eu, Lynn (e seu apetitoso braço de chocolate), Crosby, Dante, Raymond e Alvin. E quando passava por nós, acenávamos freneticamente, chamando a atenção dos passageiros, que sorriam curiosos, e do motorista, que acenava buzinando. Neste momento, Lynn ficava quieto. O ônibus se aproximava, ele levantava, abaixava as mãos e contemplava o veículo, murmurando muito baixo: “Cuidado... Cuidado... Cuidado...”. Depois, juntava-se a nós para contar as tragédias.

Ele falava bastante sobre essas tragédias, parecia com nossas mães, só que marrom e de boné. Na verdade, ele era o porta-voz da turma, andando na frente, sempre falando. Nas tragédias, fazia questão de ser detalhista. Sempre muito alarmado nas brincadeiras, Lynn não subia em árvores (“Minha prima quebrou todos os dentes numa queda”), não entrava em rios (“Conheci um rapaz que morreu afogado”), não brincava na chuva (“e se um raio me pegar?”), mas, sobretudo, Lynn não corria no meio da rua. De jeito nenhum.

Aos 4 anos, viu sua irmã ser atropelada por um ônibus. Quando nos contou, sonhei durante uma semana com a cena que ele não hesitou em detalhar. Sempre nos avisava, com aquela voz de bronca: “Olha o carro... Não vai agora...”. Ou gabava-se mesmo: “Nunca nenhum carro me pega, pois sou menino bom e brinco sempre na calçada”.

Se isto aborrecia? Sem dúvida. Quando Lynn almoçava em casa, mamãe falava: “Que garotinho obediente... Toma sopa e sabe que legume faz bem”. Eu rangia os dentes de ódio, perguntando onde diabos haviam colocado as crianças normais que comem doces e correm no meio da rua.

Estávamos até acostumados, mas a falastrice dele já enchia naquela hora depois do ônibus. E decidimos um dia não dar mais ouvidos a Lynn. Quando o garoto percebeu que não tinha mais em quem dar broncas, calou-se e foi para um canto. Eu, do gol, percebia os olhos muito atentos que ele colocava na bola. Naquele instante, enquanto pensava me divertir com os amigos, vi que criança é cruel sem querer. Mais tarde, algumas crescem, colocam os freios, depois percebem que não precisam de freios e se tornam adultos cruéis por esporte mesmo...

Em alguma hora daquele jogo, tão alegre e sem regras, a bola foi parar na rua. Todos no campo pararam, como que esperando aquela vozinha fina mandar-nos ficar em segurança na calçada. Para a nossa surpresa, nosso guardião foi atrás da bola. Com os olhos incrédulos, acompanhamos os passos seguros e pomposos de Lynn para pegar a bola. Como num filme, ele abaixou, pegou a bola e olhou em nossa direção com um sorriso que na hora me lembrou um filete de marshmallow.

Fomos interrompidos por um barulho de pneus.

O ônibus havia se atrasado naquele dia e Lynn estava com a bola nas mãos. No meio da rua.

Lembro de ter visto de relance o lençol branco manchado de sangue que cobria o corpo do menino de chocolate. Curiosos foram mais perto para ver. Ficamos afastados da rua, sem coragem para ir até lá. E foi assim desde esse dia. Não brincamos mais de bola.

Encontrei pela vida muitos outros amigos que me davam broncas, ou que se pareciam, tinham cheiro ou até gosto de chocolate. Mas, com lágrimas muito salgadas, lamento nunca mais ter encontrado um amigo que não gostava de doces e não corria pelas ruas quando criança.